quinta-feira, agosto 21, 2008

Todo Mundo Pro Chão.








O dia seguinte correu livremente como já havia planejado Beto; a corridinha na orla, assistido alguns filmes, lido outros mais livros, deixando para trás o desconfortável e inevitável ócio da greve. A mente trabalha de forma mais convicta e não se aventura por pensamentos sem nenhuma importância, quando os atos ocupados para adormecer o ócio serão praticados conforme foram esquematizados. Já perceberam como acabamos por nos adaptar com certos fatos, esperando ociosamente ansioso que eles mudem, sem ao menos nos ocupar com outros assuntos, na verdade queremos que alguém tome conta desses assuntos do ócio, culpando os acontecimentos como criadores do marasmo em que nos encontramos, enquanto que na verdade o que devemos fazer é assassinar a ociosidade como for possível, assim como agiu Beto, estudando e se ocupando com a vida. Em todo caso, por conta de seus afazeres, o brilhante estudante de Ciências Sociais nem se quer viu o tempo passar, quando saiu do banho, lá pelas seis horas, lembrou-se de ir ver o amigo na Cobal do Humaitá. Não deu tempo para mais nada, pegou algumas tralhas, os seus fardos da humanidade tecnológica, celular, carteira com documentos, chaves do carro e saiu saindo, afinal, estava em Copa e o trânsito podia não ser dos melhores.
Não levou muito tempo e já havia parado sem saber ao menos por quê, só suposições. Graças ao bom Deus, que Deus se tenha, o transito, de início, estava cântico, suave e sereno, nem parecia o bom e velho Rio de Janeiro, mas, tanto que por azar, apareceu a blitz, falsa e verídica, fazendo por se estender em seu caminho, trazendo aquele velho desconforto já conhecido do povo carioca, e, Beto, pardo do jeito que é – Encosta, encosta aí! – Acostumado com os procedimentos enraizados na sua conduta civil, deixou clarear seus faróis e de leve ultrapassou uns emaranhados de cones, o jovem de aparência suave e feições sérias, aterrissou com uma breve distância do último cone o seu carro popular, porém suficientemente em condições para outro automóvel anexar ao seu lado – Os documentos do carro e de motorista, faz favor! - O olhar de serenidade confiança em que Beto observou os policiais foi respondido por um olhar de fúria contida, suprida no reflexo de seus olhos no coldre dos policiais – Ta aqui os documentos tudo em ordem; IPVA, documento do carro e minha carteira de habilitação, pode olhar! – Com mero desdém, o cabo Orlando caminha em volta do carro, observa alguns adesivos – OK! Pode descer do carro! – Os comandos prosseguem – O porta-malas carrega alguma coisa? – Não, talvez uma cadeira de praia – Ótimo, pode abrir – No mesmo instante algo de intrigante acontece. Logo quando passava alguns carros, encosta um outro, com os vidros totalmente negros, ao lado do pequeno carro popular de Beto que de longe observava o carro sendo revistado, quando de repente, mais que de repente, os vidros negros se abaixam e começa a ricochetar para todos os lados possíveis, inclusive para o lado do estudante que em um suspiro de reflexo, joga-se milagrosamente ao chão em busca de uma segurança momentânea. As quatro portas do automóvel que havia estacionado ao seu lado se abrem liberando todo seu caos urbano. Cinco homens armados de metralhadoras e roupas civis saem atirando em direção aos, já agora, supostos policiais, que até agora aturdidos pelos tiros, jazem mortos ao chão, sobrando rastros de violência, o deserto num segundo e Beto noutro ao chão. Alguns espectadores observavam, tudo e todos, atônitos com apropria realidade, cada vez mais ficção. Ainda catatônico o pequeno protagonista observa com o rabo de olho quem caíra, não menosprezando aqueles que ficaram de pé. Mais uma vez o instinto de sua conduta humana desperta enraizada, como dito anteriormente, falando em nome de sua pessoa - PODEM LEVAR O CARRO! AS CHAVES ESTÃO NA IGNIÇÃO – O homem com roupas civis e armas militares puxa de seu cinto um pequeno comunicador e com o mesmo, perto a boca, cochicha algo, para logo depois se dirigir até a presença vergonhosa da mais nova vítima de desgraça alheia, carioca. Tão pouca aquela situação terminara, havia feito suas preces para que diante daquelas circunstancias saísse vivo dali, sem um único arranhão sequer – Calma garoto, está tudo bem agora, já pode se levantar – A mão direita estendida em direção ao jovem ao chão, parecia piedosa, cheio de ternura, apesar do fuzil contraditória empunhado em sua mão esquerda – Esses homens eram traficantes perigosos, estávamos em uma operação sigilosa para prender esses criminosos, mas já foram abatidos, já pode se levantar, fique calmo! – Apesar das palavras saírem altas e claras proferidas pelo homem que se dizia policial, aos ouvidos de Beto, foram meros balbuciar, palavras turvas pelo medo de outro combate iminente. Um pouco aturdido pela cena dramática de mortes surpresas, jamais visualizadas pelo estudante, sendo que, uma coisa é um cadáver na aula de anatomia da faculdade, outra, é a morte assassina que lhe remata os olhos de repente sem aviso – O que? – Foram às únicas palavras que surtaram tranqüila no palco do horror – Foi os que eu disse garoto, somos policiais civis, fique calmo, agora já passou, espere um minuto, os documentos, por favor – Beto não acreditou nas palavras do policial, ficou atônito, mas o medo era pavor, resvalando em um gesto rápido e único, que ao puxar a carteira, cai de seu bolso um pequeno pedaço de seda, que por sorte o policial não viu, pois mais um transtorno surgiria, como irá surgir futuramente – Está aqui, tudo aqui, pode ver, não estava com estes caras – Fique tranqüilo garoto, é só procedimento de rotina. Mas mesmo assim vamos ter que revistá-lo – Não leva muito tempo e Beto é liberado, não quiseram levá-lo para depor, nem tão constar seu nome e suas iniciais, ou qualquer outro tipo de identificação nos autos, apenas disseram – Vá para casa garoto não há nada para você aqui, você já viu demais! – O tom enérgico e imperativo não fez Beto contestar um ai, apenas dirigiu-se ao carro e saiu saindo mais uma vez. Ninguém em sua sã consciência responderia – Mas calma aí, eu sou uma testemunha ocular, vocês não vão querer meu depoimento? E o inquérito dos fatos e acontecimentos, o relatório do flagrante? O que irá suceder-se depois? Não querem que eu vá a delegacia? – Tais argumentos fariam com que qualquer pessoa seja confundida com algum bandido, ou uma perda civil por mais uma bala perdida, o que acontece todo dia nesta cidade, para justificar o seu falecimento. Um pensamento como, “eles devem ter os seus motivos” ou “a corrupção é triste neste país”, ainda mais, “quem é quem nesta cidade? Pouco importa, eu vou é dar o fora daqui!” São alguns dos pensamentos que se passaram diante da aterrorizada mente deste jovem rapaz, que antes de sair de casa, mal sabia ele que ia se deparar com tamanha barbárie.
Por mais que saibamos pelos jornais de que como se encontra violenta a guerra urbana em nossas cidades, nunca achamos que irá bater em nossas portas, vivemos nossa vida aos esmos, felizes sem se dar conta, da violência que cresce e envelhece junto com agente. Acontece que o nosso amigo aqui, o Beto, já sabe disto, mas decidiu viver sua vida longe destes por menores, apenas quer ser mais um ser economicamente ativo sem ter que se preocupar com as mazelas urbanas, ou melhor, humanas. Não podemos esquecer nosso outro protagonista, Rodrigo Santos, que agora já impaciente pela espera, que nunca finda, não apenas por seu amigo, mas terminar logo com este seu sofrimento amoroso em que se viu terminado, mas que a Lê talvez ainda não saiba, conta o tempo e os ponteiros que agora jazem em uma hora de atraso, junto com alguns copos de chope, que não foram o suficiente para alterar o estado deste grande boêmio, mas serviram pelo menos, a pequena alteração de humor, ao invés da grande melancolia e chateação da demora, serviu de piadas infames e críticas irônicas para os pequenos personagens da vida cotidiana que estão por ali a desfilar, a Cobal sempre foi palco de inúmeros encontros e flertes, sem dispensar as comemorações infindas que circundam pela boate de músicos ao vivo – Engraçados aqueles caras, veja só como ele cambaleia quando anda, parece um João Bobo, ele parece que fica parado no lugar de tanto que vai e volta, pobre coitado. O amigo dele nem para carregá-lo ou algo do tipo, está ali mais pela gozação do amigo, de certo é um palhaço. Está certo que já cai algumas vezes, mas sempre em lugares propícios, como em shows e afins – Muito interessante os comentários. Mais interessante é constatar, justos são os calados de almas e espíritos, pois nem a Deus criticam o próximo, apenas deixa existir o mínimo de autocrítica. Esperar de si mesmo é melhor que cobrar incessantemente do individuo ao lado. De certo quando bate o tédio e estamos sozinhos, quando chega a exaustão da autocrítica, nasce o julgamento criticastro, todos que passam é algum motivo de crítica, “olha aquela mulher, tem o nariz estranho” . Não obstante, Rodrigo, também serve para seus vizinhos anônimos ser palco de observações, como, “olha aquele pobre coitado, tomou um bolo da namorada”, ou ainda, para os mais imaginativos, “o que será que aquele cara ta fazendo ali até agora? Faz tempo que está ali. Só reparando em todos e a tudo. Pode ser que ele está esperando alguém. Mas está taciturno, obscuro. De repente ele é um policial disfarçado. É melhor esconder minha maconha”. Somos sempre alvo, mas ninguém percebe, ou finge não perceber.
Quando Rodrigo já havia esquecido o que foi fazer ali, olhando um belo par de bundas que passava pelo local, chega esbaforido, meio ser ar, mas arfando como se o ar fosse capitalizado, e este fosse um homem muito rico querendo demonstrar seu poder de compra, esbravejando ao meio de soluços, quase chorando, um pique olímpico de invejar os maiores atletas, o estudante de Ciências Sociais Beto que agora pouco passara por uma experiência muito educativa nas trincheiras asfaltadas em uma área nobre do Rio – Meu Deus! Puta Que Pariu! Cara você não acreditaria se eu dissesse, mas em todo caso, aconteceu comigo uma história, diria mais, um fato extraordinário e não sei como sobrevivi – o peito esguio de Beto debatia-se de forma desesperado, cheio de esperança por novos ares, literalmente, algum médico que passasse por ali levantaria óbvias suspeitas, não levaria muito tempo para dizer, “dêem espaço para este rapaz respirar, ele precisa um pouco de ar.

terça-feira, agosto 12, 2008

Paladar Agônico.






Pérola,
Perto do seu olhar,
Minhas palavras se perdem em sons.
As letras
E expressões
Tem todo um novo significado em sua boca.
Seus sentidos não chegam a ser sentidos,
E todo amor não pode ser traduzido em uma simples Te Amo;
é o paradoxo de uma agonia no paladar de um beijo eterno.
Sinto você no meu corpo em cada segundo distante,
E a proximidade da razão, torna-se uma remota lembrança.
Preciso do seu afago,
Do calor do seu sexo,
Do despudor e a devassidão que nos eternizam dia e noite.
A mente voa enquanto embalo nossas lembranças,
A semana é insuportável...
Lenta em demasia, ou
Breve de mais;
É tudo ao mesmo tempo,
Não entendo.
Queria poder entender pra escrever tudo que sinto,
Mas me perco nas vãs palavras e em seus sentidos longínquos.
Aspiro ir além daquilo que poderia explicar tanta beleza,
Entretanto
Me sinto cada vez mais distante.
Amo-te.

segunda-feira, agosto 04, 2008

A Pérola; A Ostra E A Insólita Concha.









O sol doce na boca dos inquietos,
Chispam no reflexo das águas deslustradas
Pela consternação.
Vejo queimar suas flamas num mar de terra infirme.
Em sua crosta,
Limo;
Escorregadio,
Traiçoeiro nas rochosas montanhas no limiar da razão,
Um passo em falso e,
Sem sentidos do ser,
A idoneidade pode ser insuportável.
As pedras me cobriam e soterravam com tamanha volúpia,
Que a atmosfera criada
Aprisiona-me numa claustrofóbica existência
Junto ao meu íntimo,
Calado no preconceito;
Das formas delatoras;
Do repúdio;
De calor e
Prisioneiro do desejo que me esquece a carne.
E desta carne a guerra adentra o coração.
Não havia como fugir.
A música me aterrava os punhos
E cerrava os olhos,
Buscando nas minúcias lhe encontrar.
Contudo,
Dominou-me a aversão.
Cada nota de esperança,
Sorvida por um beijo sem paixão,
Tornava-se o desperdício.
Virei intérprete.
Atuava em vão em vã consciência.
Das rochas perpetrei meu organismo.
Fechado na escuridão,
Fiz-me ostra de uma insólita concha
Ainda que oculto,
Vivendo em rascunhos adormecidos,
O fulgor estala numa intrépida transposição,
Onde a Pérola iluminou de sobressalto
Todo o organismo destas rochosas viscosidades,
Uma razão firme,
Genial;
O amor é mais
Do que a razão pode conceber
Nada pude evitar,
A não ser me render
De corpo
A cada pedra
Num breve suspiro de amor.
A Pérola enriquece
A insólita Ostra.
Arranco-lhe a boca num chupão,
Hausto sua viscosidade num tenro vinho de gozo.
Rubro,
Tal qual o sangue,
Jorrado pelo descontrole.
Refiz minha concupiscência.
Volver a pérola tornou-se um capricho,
A extensão dos presentes
O único dos brindes que completa a pessoa que arde no íntimo.
A boceta me cala ao me colar a boca;
E me faz urrar o incompreensivo.
Tremo os poros do desejo,
Mordendo os lábios; Aperto a bunda.
As pálpebras se fecham inconscientemente.
Sinto a dor como um prazer homérico,
E nas nuvens de um escuro sentido,
Morro em milhões de pedaços
Num segundo de explosão,
Que se perpetua.
Afogado pelo prazer,
Abraço-lhe firme num sorriso aliviado,
Suspiro aéreo em vôos distantes,
A mente vaga.
O amor louco que todos fogem,
Em mim traz a razão de ser.

Lobato Dumond.

sexta-feira, julho 25, 2008

Terno e Gravata Das Bermudas.



O sol brilha em pleno inverno num calor de 28 graus amenos, porém quente. Ligo para o Cartório De Contas E Registros.

Pode entrar de bermuda...?
Só não pode entrar sem camisa, o resto tudo pode. – palavras dela.

Que bom, ainda há esperança.

segunda-feira, julho 21, 2008

Olhos Verdes.








Estes olhos verdes
Embutidos num sorriso de chumbo,
Despertando o que há de melhor
Nos reflexos de minhas pálpebras
Negras, cheias de dúvidas e certezas incertas.
Sou na verdade
Apenas um espelho do ser humano mais ofuscante
Deste astro circundante
Tão cheio de luzes

Meu mundo agora é verde
Da cor dos seus olhos,
Da cor da esperança
Cheios de vida incógnitas
Uma dor que nunca se apagará
Ou um rascunho que não vira arte
Fica vazia,
Apenas no rabisco do papel ou na mente
E tudo que é isto
Move meu mundo

A gota de uma lágrima
Esverdeada pelas retinas sorridentes
Emergida da felicidade
Umedeceu meu coração
De lá,
Brotou todo meu amor.
Nem todas poesias do mundo,
Nenhum poeta,
Tão pouco os maiores dos loucos
Junto aqueles dos mais incompreendidos
Saberia exprimir a beleza do meu amor

Aaa...As rosas...
Se pudessem teriam seu glamour,
Não só o seu perfume
Tentariam, se pudesse,
Fingir ser da cor de suas retinas

Meu amor é abstrato,
Não é concreto,
Assim suas proporções
São absurdamente tão absurdas,
Não podendo defini-las.

sexta-feira, julho 11, 2008

Imagens Ocultas.







A planície nem sempre nos mostra seus esconderijos,
Através do tempo aprendemos enxergar as minúcias da terra.
Correr a esmo não nos leva à lugar algum,
Contudo, de certo,
É divertido.
Não adianta se esconder ante ao abismo que nos cerca,
A brisa vindo de sua boca negra,
Emergindo de lugar nenhum,
Apenas de uma larga cratera,
Arrasta nossos devaneios
Deixando sepultar a razão.
A saída é voar,
Não cair nesta fenda;
Ruir a fantasia.
E sim dissipar-se dentro dela;
Flutue a realidade.
Descobrir seus segredos mais íntimos e ditar ao tempo o que somos
Seguindo o fluxo de nossa singular estrada.
O tempo transforma tal qual o fogo,
Deixando as cinzas e vestígios se alimentarem da história de cada um.
A carne perece,
O sangue coagula,
Os ossos se esfarelam
E a pele apodrece,
No entanto nada impede o íntimo de seguir suas faces.
O entusiasmo criador muitas vezes se perde na boca,
Sem perceber que das inspirações se erguem nações
Junto aos sensíveis mais fortes.
Deixem a mente vagar em busca de seus esconderijos,
Assim desnudando cada película de imagem.
Iluminando todo seu ser.

sexta-feira, junho 27, 2008

Sem Moedas.






Faltava pouco para a hora exata do Ônibus que me levaria de volta ao Rio de Janeiro. Coloquei no chão minha mala e fiquei olhando o movimento urbano insano. Havia certo odor de queimado no ar, como se ali perto alguém queimasse um pouco de lixo. Não chegava a feder, mas era um odor forte, dava pra fazer uma careta. A rodoviária estava lotada de transeuntes, muitos com a casa nas mãos; caixas, caixotes, embrulhos, malas e mais pacotes, eram coisas que não acabavam mais. Simplesmente meu dinheiro acabara. Não sobrara nada pra contar porra nenhuma. Bem provável que o mesmo acontecera com aquelas pessoas. Fodidas sem ter pra onde ir, jogados pela sorte de suas fantasias. Num súbito instante, o odor de queimado é tragado por um inesperado perfume de chuva. Não demorou muito pra água começar a alagar os céus, era uma torrente assustadora; de certo meu ônibus iria atrasar. A água inundava o asfalto, afogando minhas expectativas de sair dali tão cedo.
- Oi Moço, com licença... - Não percebi este cara se aproximando. Seus olhos eram tristonhos, cheios de mágoas e transtornos, assim como a chuva, transbordava a aflição na forma de uma tempestade, fortalecida num vento seco e frio pela pena de si mesmo.
- Claro. Algum problema? - Sua fisionomia era o sofrimento embutido num rosto mulato.
-... É que eu venho de muito longe... - Seus braços eram magros, com algumas feridas. Vestia uma camisa folgada de abotoar junto à calça jeans maltratada, assim como a própria presença deste infeliz. Pelo menos era a única coisa que ele passava; infelicidade. -... Meu pai acabou de morrer, teve um infarto fulminante. Tava no banho. Eu tenho dois filhos pra cuidar e minha mulher ta com o meu veio na geladeira, só me esperando pra enterrar o coitado... - Seus olhos esbugalhados, não sei como, ficavam cada vez mais arregalados conforme falava. -... Meus meninos também estão me esperando e eu tenho que voltar pra casa. O senhor não tem como me ajudar a pagar a passagem? - Claro que a história me comoveu, ainda mais contado por um pobre fodido como aquele. Infelizmente, em todos os sentidos, me veio à lembrança de outra história bastante parecida. Eu estava na rodoviária no Rio pra uma viagem e me surge um carinha contando uma historia bem parecida com esta, querendo dinheiro pra passagem. Eu dei o dinheiro pro cara, e segui meu destino. Quando eu volto depois de duas semanas, o mesmo carinha me pediu dinheiro contando a mesma historia. Eu apenas ri e disse; cara, você já me contou esta merda, não lembra? Ele me reconheceu e olhou assustado. Seguiu seu rumo olhando de soslaio, meio tropeçando em seu medo alimentado pela imaginação. Voltei ao presente com aquele pobre infeliz me encarando, esperando sua resposta. - Cara, eu não tenho um puto sequer... - E não tinha realmente, todavia isso não pareceu verdade, ou pelo menos o rapaz não acreditou em minhas sinceras palavras. Seus olhos que estavam pidonhos, cheios de lágrimas de esperança, tornaram-se frios e secos. Fechou a cara e não disse mais nada, começou a andar sem olhar pra trás, como se eu nunca estivesse estado ali, ou existido de fato. Acharia tudo muito triste se não fosse cômico. Logo estava pedindo dinheiro a outro transeunte. Senti uma leve fisgada no estômago, ao ver uma menina passar com um sanduíche, estava deliciosamente suculento. A cada mordida o recheio transbordava, escorrendo pelos dedos e a boca mastigava lentamente, deixando um pouco do molho peregrinar pelo queixo. A mãe segurava a mão da filha sem se importar com a meleca toda, tive vontade de arrancar o sanduíche da mão da criança e sair correndo, contudo me contive em minhas amarras sociais, não cheguei neste ponto ainda. Cada individuo fazia de si parecer um universo em particular; dois caras passaram por mim sem camisa ostentando umas tatuagens com mulheres abrindo suas bocetas no rosto de quem olha pra tatoo; Uma ninfeta passa por mim rebolando seu lindo rabo, devia ter seus dezesseis anos. Ela segue conversando com uma amiga rumo ao ônibus; um motorista deixa o carro na rua e sai correndo devido a chuva avassaladora, chegando ao lugar coberto, já esta todo ensopado resmungando alto. O motor ronca alto, então vejo meu ônibus encostando-se à plataforma indicada. Pego minha mala e fico aguardando a hora para adentrar e sentar em meu assento. O motorista fica do lado da porta dianteira, olhando-me de soslaio com um olhar obtuso. Este homem possuía uma face estranha, parecia um abutre cheira cu, um ar de nojo lhe preenchia o ser que me apresentava. Entrego minha passagem em mãos deste Abutre em repulsa e, sem deixar de prestar atenção aquela peculiar caveira, dou o primeiro passo na escada que sobe o ônibus. Abruptamente minha mala é arrancada com violência dos meus braços, uma mão segura na gola da minha camisa social e me joga ao chão de forma estúpida, e sem entender fico por terra. Senti-me fraco e humilhado. A voz gritava furibunda.
- Onde pensa que vai? - Era uma voz personificada grave.
- Como assim? Eu acabei de dar pro Senhor a passagem. - Retruquei injuriado. Foi então que percebi dois policiais me erguendo do chão com brutalidade por ambos os braços. Um já estava revirando minha mala buscando algo de ilícito, jogando tudo a esmo, enquanto o outro colocava o dedo fedorento na minha cara.
- Nós estamos de olho em você há muito tempo rapazinho, esgueirando-se pelas vielas da multidão, sempre fugindo das verdades e da razão de ser...
- Mas do que porra você está falando?
- Olha a boca meu rapaz - Outro policial me encosta ao ônibus com o dedo em riste.
- Você sabe do que estou falando, seu vermezinho do imundo, sempre se aproveitando das fraquezas do sistema para fortalecer suas atitudes vis. - Minha mala já estava vazia com as roupas jogadas por todo o lado. De repente, mais que de repente, o policial se levanta afoito e esbaforido, sorrindo aliviado por encontrar algo.
- Veja Sargento, achei alguma coisa. - Era um baseado que havia guardado pra mais tarde, sabe como são as coisas. O fino já estava confeccionado e dentro de um pequeno saquinho plástico, destes que vem no maço de cigarros.
- Mas o que diabos... - Logo um safanão me corta o ouvido. Fico ouvindo estrelas e sinto arder a face. Coloco a mão em cima de minha pele avermelhada. A raiva também já me fere os sentidos.
- Seu filho de uma puta, escondendo o jogo desde o princípio, seu traficante de merda! - O ódio germina nos olhos do sargento, enquanto a multidão se formava ao nosso redor. Estava montado o teatro, e me senti o protagonista.
- Senhor, isso é só um fininho pra consumo próprio, não pretendo vender...
- Você é pior que o traficante, você alimenta esta merda toda, a desgraça que consome o país é sua culpa! - Algumas pessoas se mostraram satisfeitas pela atitude do sargento, outras, porém, viram-se ofendidas em seu íntimo, um excesso sem necessidade.
- Eu não sou pior, nem melhor que ninguém, cada um consome... - Outro tapa me zuniu aos ouvidos. Sinto o rosto queimando e inchar.
- Vocês são a desgraça, sem sentido e sem valor, não prestam nem pra trabalho comunitário... - Nisso recebo um soco na boca do estômago. Caio com a mão na barriga e me encolho entre as pernas.
- É só um digestivo, porra! - Grito impulsionado pela exaltação.
- E ainda quer falar alguma coisa? - Sinto um chute no meu joelho e caio de lado ao chão. O outro policial se afasta juntando minhas roupas e colocando na mala. Estas pequenas ações tiram a atenção do sargento, fazendo-o olhar para o outro lado. Eu o agarro pelos pés, derrubando-o sem jeito por conta de sua enorme pança. O sargento ainda tenta agarrar meus braços, mas eu me desvencilho e consigo alcançar sua arma em seu coldre. Levanto rapidamente com a arma em punho, destravo-a e aponto para o policial que corria em nossa direção. O tumulto se torna um grande alvoroço. As pessoas que observavam quietas e sem reação, correram desesperadas buscando proteção.
- Para aí seu filho da puta! – Grito feroz – Sabe o que falta nesta porra? Diálogo seus merdas! Diálogo! É isso e acabou? Seu gordo escroto, você não gosta da cachacinha, não faz sua sujeira cobrando cervejinha? Eu gosto de um doisinho. E você também é um puta hipócrita, vive chafurdando na merda que nem um porco e quer ser juiz de alguém? – Nisso bico a cara do sargento. Ele chora. Nisso, bico de novo. Ele cospe um dente e fica gemendo. Neste meio tempo ele faz uma careta, como reprimindo algo que alguém faria atrás de mim. Decido então atirar na cara do Gordo escroto. O sangue dele explode por todo o canto. Meu ombro explode junto com a cabeça do gordo. Vejo o sangue jorrar no ar, meu corpo sente a perda do movimento de um dos braços, mas ainda tenho o outro. Num movimento lancinante, viro atirando em quem quer que seja. Meus sentidos aguçam neste momento, como num passe de bruxaria. Consigo dar dois tiros, acertando um na testa de outro soldado que se aproximava, e nas costas de um transeunte desesperado. O soldado mais próximo a mim, se enrola na hora de sacar a arma, dando tempo para eu virar. O soldado dispara e acerta meu estômago, no mesmo tempo em que acerto um tiro em seu peito. Desabo ao chão semi consciente. Os ferimentos ardem incontrolavelmente, rasgando a pele junto à carne. O sangue domina o perfume da chuva e o rubro a cor ao redor. Os gritos fazem uma sinfonia assustadora. Tudo por causa de um maldito baseado. As idéias se esvaem e o rosto cai pro lado. A chuva caindo violentamente lavando a alma que se põe junto ao sol. A paisagem se tornara o palco do terror, de certo veria meu nome nos noticiários, na verdade eu não veria, mas outros saberiam quem fui. O som da chuva aturdiu meus sentidos e os sonos dominam o vago, até o vazio dominar a fantasia.

domingo, junho 01, 2008

III - Imagem Sem Reflexo.









“Eu não sei mais onde me encontro. Todos meus alicerceis construídos, tão envoltos em névoas e fantasias, ruíram fulminante num lago de voragens incríveis. As quimeras habitavam vivamente as chuvas de um mundo real, desumano e sem sentido algum para o racional. Alguns diriam ser o diabo encarnado no osso e carne. Mas faltaria a alma louca e pesada, que tudo esmaga com a força da mão divina. Ergui estrepitando o pé no chão. O mundo girava e eu sabia bem disso, nada parava ao redor. Senti arquejar as forças que me mantinham em pé. O pulmão cuspia bolhas de sangue nas costelas. A multidão me constrangia cada vez mais, acusando-me em seus olhos de perturbado. Senti o gosto salgado em minha boca, tal qual um pingo de chuva adocicado pelo rubro. Um braço tentou agarrar minhas pernas. Recuei assustado num urro de dor. Parei e vislumbrei toda minha queda num suspiro. O abater dos sentidos não veio rápido. Ainda pude ver retinas famintas da multidão. Eu tremi em convulsões, arregalando os olhos numa súplica de razão. Não houve uma atitude sequer de iluminação, apenas urros e convulsões de minha parte. As quimeras agora tomavam formas diversas; colunas implacáveis de um exército invisível do passado agora atacavam minha memória. Nada pude fazer senão lacrimejar a insanidade; busquei a razão num soluço seco em vão. A escada de incêndio estava cheia de curiosos e de altruístas charlatões. Uma saudade invade meu coração confuso. A falta de um lugar onde estive muito pouco ardeu profundamente uma chama opaca em meus sentidos. Eu estive tão pouco tempo neste lugar, que poderia não ser verdade, contudo a saudade era latente e real. Podia ser o amor de minha vida esquecido, ou apenas um déjà vu. Gemi sorrindo pela dor aguda em meus ferimentos; lacrimejei pela alegria de um instante de saudade; tremi em convulsão frenética num desespero agonizante, cambaleando no espetáculo funesto da vida”.
O resto de energia que sobrara em seu cadáver, fora usado por estes últimos movimentos ébrios. As trevas dominaram seus sentidos num último suspiro de naufrágio. Os sonhos agora se faziam reais, entretanto não era o passado que lhe afligia as nesgas entre a realidade e a fantasia. Parecia ser um futuro incerto e cheio de novidades. A mão de uma mulher lhe acariciava a face num movimento tenro, enquanto os lábios doces, desta mesma mulher, lhe confortavam o desejo. Não havia tremor em seus sentidos, apenas o aconchego de uma certeza inexorável. Contemplou um pouco a visão por completo; a mulher e suas formas magníficas. Parou por um momento e levantou-se onde quer que esteja, deixando transparecer um leve sorriso inquieto. Começou a andar pelo recinto; não havia névoas cobrindo as nódoas da razão, tudo parecia tão real, tal qual o toque da dor; estava caminhando na sala, observando os móveis coloniais que adornavam a tudo com bastante graça; a cortina voava com desenvoltura junto as baforadas do vento, contornando a visão hipnoticamente em suas ondulações; a calma reinava soberana no ambiente; o piso suave e gelado refrescava o corpo do calor ameno, que cobria a brisa dos poros úmidos de suor. A porta se abriu sozinha num piscar de razão. Caminhou lentamente até a saída, a saudade se fez existir numa lágrima doce, no tempo em que as mãos limpavam o rosto. O horizonte estava magnífico, um verde que não tinha fim, junto a terra rubra que ornamentava o senso divino para os mais incrédulos. Um cachorro veio ao seu socorro e lhe acariciou a mão com o focinho. Ambos sentiram a ternura do toque. Uma mão segura a sua em um firme aperto de paixão. Desconcertado pelos sentimentos repentinos, Guilherme se vira assustado com o olhar firme e pronto as surpresas repentinas. O campo abria um convite com tal beleza, fazendo-o engolir em seco sua admiração. Sua boca colou em um beijo violento a uma mulher que nunca vira, mas que sabia reconhece-la do seu inconsciente. Guilherme desce as escadas para terra rubra e novamente se reencontra onde estivera tão pouco, todavia numa paz intensa como a dor da queimadura, que seria difícil esquecer e não sentir tamanha saudade. Tudo é vislumbrado como na primeira vez. Não era apenas o bucólico dia que lhe enchia de tanta serenidade, era o novo que lhe foi tão velho outrora, que agora se tornava ainda mais vivo.
“O toque da mão suave fez meu coração pulsar em todo seu vigor. Não contive um sorriso ao canto da boca que engoliu a lágrima, contudo sentia-me feliz. O sol me cegou aos poucos, a luz é insuportável a certas pessoas, fogem de sua lucidez para evitar respostas de seus fracassos, ou de erros inescusáveis. A dor se esvaía aos poucos. Procurei algo nos bolsos que pudesse explicar esta insana encenação de uma vida campestre sem sentido. Sempre fui um homem da cidade grande e do caos urbano, acontece que me sentia vivo, e a paz se fez tão real de imediato, fazendo-me perder o tempo dos acontecimentos”.
Correu até o horizonte que se expandia por toda miragem, ou imagem.
“Não sabia o que fazer com esta alegria que mal cabia em mim mesmo. Corri sem direção ao ponto de me perder. Estava longe da casa agora, não a via mais. Parecia estar perdido no meio de uma plantação de milhos. Apenas parecia, pois não poderia dizer que diabos era aquilo. Arranhava os braços e pernas no meio dos galhos retorcidos, saiam do chão como se fosse me arrancar a alma. Uma maldição ancorou em meu coração, sentia meu corpo pesar,e o sangue escorrer, fervendo por minhas entranhas. Fechei os olhos ao ser engolido por um corte no chão”.
Abruptamente o homem preso em galhos e terras, que o mastigavam com sua areia, urrou disforme e se desvencilhava da culpa pelos caminhos errados que decidira tomar. A vida que escolhera, na verdade não foram escolhas, foram decisões precipitadas e sem fundamentos; o desperdício de tempo em que gastara com importâncias ínfimas; fazer parte de um grupo que não o aceitara como seus sonhos o conduzia; agora o preço fora cobrado e tudo explodira em sua direção. As raízes o puxavam para o fundo, onde certamente, poderia rever o que acontecera até ali. Num milésimo de segundo tudo mudara. A cidade grande se tornara o cenário da perdição em seus sentidos. O grito ainda saía de sua garganta. Aflito e sem direção parou por algumas horas, prostrou estático, tal qual uma estatua, ou aqueles mímicos de rua que conseguem não se mover durante horas. Os motores lhe faziam espremer os miolos em fragmentos tão pequenos, que seria impossível conta-los. Olhou suas mãos de cima, examinando a palma e os pulsos. Guilherme estava encardido do pé a cabeça; seu cabelo parecia palha de aço, duro e imundo em cada fio; as roupas estavam rasgadas e irreconhecíveis, não saberia se dizer, o que era camisa ou calça; a poeira parecia soltar e sair de seu corpo a cada passo; a própria mão carregava uma crosta de imundice; a barba crescera não deixando ver nada além dos olhos; Não havia mais sapatos, apenas chinelos desbotados pelo uso e idade. A rua estava cheia e todos os notavam como um monstro a ser morto. Muitos passavam encarando com desprezo e repugnância, com medo do olhar paranóico e assustado de Guilherme. Não havia um olhar sequer que o julgasse, não havia uma só pessoa que não o reparasse. Sua carne fedia a verdade, do que somos feitos e produzidos. As pessoas continuavam vindo e indo com imensa rapidez, não notavam a semelhança em Guilherme; ele não podia ser humano. Não esta coisa ali em pé, carcomida pela sua própria desgraça. Continuavam notando este homem sujo que nem olham uma peça de teatro, esperando algo acontecer, algo que os espantassem, ou que ferissem seus sentidos. Estavam chocados com tal imagem. Uma quimera vinda dos infernos da realidade.
“Nada mais importava. Ainda via as raízes puxando minha carne, quando no segundo seguinte estava em pé olhando meu reflexo na vitrine de algum lugar na cidade. Não reconheci a pessoa pesada na minha frente, catatônica e aturdida pelo julgamento alheio. As máscaras passavam notando o óbvio e, após notarem minha presença, caíam pela fragrância do insuportável. Continuei parado vislumbrando a minha própria imagem refletida no vidro. O rosto me era familiar, mas o olhar estava perdido e sem direção aparente. A ambição que sempre carreguei em meu sorriso, sumira em faces tristes; em máscaras. Senti falta do sobrenatural e da insuportável fé. Cada pessoa que passava por mim, esfaqueava minha presença em olhares altivos. Estranhamente não sentia nada, parecia ser dono de mim ao menos, sem nada a perder ou ganhar, é fácil se tornar dono de seu destino; basta correr. Estava confuso. Aturdido pelo volume de sons que me cercavam. Entretanto continuei ruminando idéias e conjecturas; o dia é cada vez mais curto, e as possibilidades crescem conforme o tempo que nos abandona; as mãos se tornam amarradas quando o coração está inquieto; um moleque caminhava com seu fone de ouvido, indiferente a tudo sua volta, compenetrado em algo; uma senhora carregava uma sacola cheia de embrulhos, suas pernas arquejavam por causa do peso. A pele estava enrugada e danificada pela maquiagem excessiva. Usava óculos de caçapa e o cabelo caia pelos ombros maltratados. A saia puída ia até a canela, onde uma meia preta furada descansava. Uma leve corcunda a contraia; uma mulher em seus trinta anos andava impaciente e agitada. Era realmente bonita e realmente cega. Seu olhar era o mesmo do menino e seu fone. Compenetrada em algo, responsável e cheia de deveres; Mais uma mulher, em seus cinqüenta anos. Trajava uma mini-saia, um jeito bem menina de andar. Uma junção extremamente interessante; alguns garotos cruzam carregando uma bola. Estavam bastante agitados, tanta energia que seus poros não continham; Dois policiais trafegam conversando descontraídos. Esfrego a mão nos olhos com força, queria entender um pouco mais deste mundo. Vejo-me na Rio Branco, Centro da cidade. Um verdadeiro alvoroço me engole, tal qual o rasgo no chão, unido as raízes. Fiquei ainda mais desconcertado. Minha cabeça girava em voltas gigantescas, sentia náuseas e pensei estar morto por um segundo. Não seria assim tão fácil. Pessoas se atropelavam por todas as ruas, andavam num ritmo surreal, compenetrados, repetindo um mantra maldito. Todos me olhavam, julgavam e me esqueciam no passo seguinte; Prostrado. Aturdido. Assombrado. As duvidas mais inquietantes não me deixavam mexer um músculo sequer. Olhava o vazio que se tornara minha imagem. O passado morrera, não sabia onde encontra-lo. Minha memória secara sob o sol escaldante do desesperado cotidiano. Fazia uma força e espremia tudo com vigor em meu confuso cérebro”.
Subitamente, numa inesperada fração de segundos, era como se Guilherme ficara invisível. Sua imagem tosca e fétida era evitada sem olhares. Aqueles que passavam por ele mal o notavam, seguiam o rumo apressados e indiferentes. Tamanha insensibilidade trouxe à tona certo desespero aos olhos de Guilherme. Sentiu-se morto e sem sentido em sua vida. Sem passado, o que seria do futuro, ou pior, o que fazer do presente? Começar tudo de novo, talvez. Mas como se começar daqui? Guilherme teria que se redescobrir. Continuou imóvel por várias horas, estagnado nas mesmas idéias. Cansado resolveu andar e adentrou a multidão. Caminhava em passos lentos sem saber pra onde se dirigia, arrastava-se determinados momentos, deixando o corpo mole e cansado. Ao atravessar a rua, olhou para os carros e viu quimeras malditas em todas as direções, com grandes bocas soltando fumaças. Uma multidão atravessava a rua, dando uma breve impressão de que estes fugiam dos carros, ao invés de estarem caminhando. Guilherme detém os passos no meio da rua e começa a gritar em todas as direções.
“O que vocês pensam que estão fazendo? Para onde vão? Não vêem o que está acontecendo? Vamos usar a razão para o que se presta! Saiam de suas máscaras, invertam os sentidos daquilo que nos sufocam! Apedrejem os vidros daqueles que lhe oprimem o coração! Sejam sensatos ao menos uma vez na vida e a positividade se fará rei em sua esfera. Não se percam no materialismo, no consumo de nossas almas. Não existe a coletividade? Cadê vocês meus amigos, cadê? Libertem-se de suas amarras sociais, a vida esta se consumindo a todos os segundos, em todos os milésimos parcos que se vão! Neste momento já se foi um suspiro de vida! Saiam de suas casas! Saiam de suas máscaras! Nós somos um, porém muitos! Não se esqueçam de onde viemos! Não se esqueçam que voltaremos para lá! Enxerguem! Transpirem! Respirem! Sacudam! Vivam! Viva! Vivam! Viva”!
Muitos riram da cena, não entenderam porra nenhuma do que se gritava ali. Uns apressaram o passo para não ser contagiado por estranha doença. Algumas faces assustadas desistiram de atravessar a rua, detiveram-se onde estavam e só não mudaram a direção por curiosidade. Guilherme de repente viu os carros novamente, não eram mais quimeras do inferno, nem pesadelos de uma mente louca. Olhou a todos com semelhante curiosidade, daqueles que lhe observavam. Não sentiu medo, tão pouco receio. Sentiu uma incrível indiferença, a vergonha não escorria de seus poros, apenas um ódio transformado em calma. A razão parecia lhe abandonar, entretanto via-se lúcido, com escolhas e perspectivas. Faltava apenas a memória para poder reencontrar suas escolhas. Não queria ser nada mais do que ele mesmo, sem devaneios, sem demasiadas perguntas sem respostas. Tudo caberia de novo na palma de sua mão, como costumava ser no passado. Passou por inúmeras lojas e frivolidades de consumo. Nada despertou seu interesse real. Parava em frente as vitrines para o desespero dos comerciantes, parava com cara de chapado e observava tudo com dor, um certo olhar mortificado pelos desejos, queria sentir o fulgor ardente novamente, de uma vida apaixonada e plena de gozos, contudo não estes de consumo parco; camisas de marca; camisetas; calças; sapatos de grife; tênis absurdos; inutilidades de consumo; meias; bonés caríssimos; relógios; pulseiras; jóias; colares; brilhantes; um comercio crescente de quinquilharias sem fim. Queria desfrutar novamente a sabedoria; continuou sua caminhada quando a fome exorbitou em um grave ruído no estômago. Dirigiu-se até uma lanchonete lotada de gente. O servente não gostou nem um pouco de vê-lo ali. Chegou a tentar enxotá-lo com algumas palavras firmes. Guilherme apenas fechou a cara e pediu algum salgado, porém seu pedido não foi atendido. Resolveu pedir para algumas pessoas comendo no recinto, o que aumentou ainda mais a sua fome. Não havia percebido antes o tanto que estava faminto, a barriga revirava-se do avesso em busca de alguma sobra estomacal. Sentia tudo se contrair num forte ronco. A boca salivava, enquanto o aroma delicioso lhe aquecia a imaginação de um bom prato de comida. Distanciou-se do ambiente e sentou perto de um poste, com os braços enroscados nas pernas. Abaixou a cabeça e se concentrou para esquecer um pouco a fome. Cada vez mais o apetite se alimentava de sua consciência, deixando transparecer em seus olhos perdidos seus próximos atos de desespero. Estava calçando sapatos, reafirmou-os nos pés, ajeitou o paletó imundo no corpo e o abotoou. Levantou, ajeitou as calças e afivelou um pouco mais o cinto. Respirou fundo e se concentrou. Fechou os olhos e imaginou a certeza de que tudo iria terminar bem. Numa explosão muscular, aliada ao desespero, saiu correndo em direção à lanchonete, esbarrando em alguns transeuntes que comiam por lá. Saltou a bancada num pulo só. Todos ficaram aturdidos com a desordem, não dando tempo para reação. Guilherme agarrou alguns salgados e uma garrafa de mate. Um funcionário ainda tentou segura-lo, contudo desvencilhou-se num puxão com o braço que levou o pobre funcionário ao chão. A lanchonete era em plena rua, com um balcão apenas e as pessoas comiam em volta. Num outro pulo já estava na rua e correndo feito um maldito, pois sabia ser um condenado. O desespero reforçado pela adrenalina, compelido pela fome, é capaz de fazer os homens produzirem façanhas. Guilherme corria tal qual um lince tresloucado no Centro do Rio, as pernas lhe ardiam descompassadas na disritmia do percalço. Os olhos cerrados o fazia colidir com outras pessoas; uma senhora foi ao chão, esperneando violentamente, de certo quebrara o pulso. Guilherme apertou ainda mais a corrida, os poros lacrimejavam a dor de seus músculos. A respiração lhe oprimia as palavras, o pensamento era suprimido pela vontade de respirar e, na fuga desenfreada, esconder-se em qualquer canto da cidade. Outros transeuntes admiravam assustados, olhos cheios de assombro, acompanhando os passos largos e velozes daquela estranha figura; o próprio Executivo da Adversidade. A visão era turva, tal qual o raciocínio. Não havia outro meio se não fugir. Contudo não fugia apenas do perigo real aparente dos que o perseguia, mas sim de toda a confusão em sua cabeça. Fugia da loucura em busca de razão. Algo que explicasse toda a insanidade que lhe afetava aquele momento. Buscava em cada passo uma fração de memória. Lembrou vagamente de ter sido um homem respeitado; de uma casa repleta de gente; de fatos e acontecimentos aleatórios, como reuniões familiares, amigos pelos cantos da cidade e relações com prostitutas. O cansaço não o deixaria mais correr, o músculo reteso ardeu em todas as fibras. Impressionante a capacidade de sublimarmos os inconvenientes em determinadas necessidades. Já estava na Cinelândia, quando parou e vomitou ao pé de uma estátua. Guilherme se joga no chão, sentando ao lado do vômito e espera seus perseguidores. Olha atentamente para todos os lados, gira a cabeça em todas as direções convulsivamente. Os olhos esbugalhados lhe deformam a face. No ritmo de sua corrida, devora os salgados em apenas algumas mordidas mal mastigadas. Num gole acaba com a garrafa de mate. As pernas tremiam descompassadas causando a desordem no corpo, impossibilitando de dar continuidade a fuga. Continuou sentado e esperou o pior. Despertado por uma idéia descontrolado, decide passar seu próprio vômito nos braços e dorso. O fedor fica insuportável, todavia o estômago agüenta o fétido, evitando novas náuseas. De longe avista uns dois guardas municipais se aproximando. De certo seguiram seu rastro até ali. Ambos vinham em passos rápidos e largos, e sempre buscando a imagem.
“Meu diafragma alfinetava minha respiração ofegante. Os músculos das pernas tremiam involuntariamente; o perfume do meu próprio vômito no braço trouxe um desconforto, mas não chegou a causar ânsia. Segurei firme e esperei. Fiquei a espreita dos funcionários, ou sabe-se lá quem estava atrás de mim. Queria lembrar, mas estava perdido. Olhava minha vida como um todo, vendo apenas meus segundos anteriores. Alguma força comprimia meu cérebro, dando certa impressão, de que cedo ou tarde, explodiria. As ações que eu escolhi como forma de vida sumiram em seus significados. Estava livre; sou livre. Eu não podia caber em mim mesmo, tudo aquilo que eu poderia ter feito, tudo o que eu poderia fazer, ao mesmo tempo e agora. Não havia fim para tantas possibilidades; era apenas uma questão de oportunidade. Sentir a presença do momento certo e agir. Junto com as escolhas via esvair minha vida, em cada segundo de existência. A velocidade do tempo tragava tudo, devorava vorazmente a vitalidade. Junto a isso não podia mais viver oprimido, precisava liberar toda exaltação vital em minhas veias; a fúria de viver. Perscrutava cada milímetro do instante seguinte, cada adorno em meus pensamentos. Olhava o vazio e via tudo; o todo. Podia antever o momento de minha morte. Ela acenando de longe, contudo perto o suficiente para sussurrar em meus ouvidos que ela virá. Não tive medo; resignei-me. Não há nada o que possamos fazer quanto a isso. E o tempo passa e se arruína; deteriora-me e aceito. As vezes esqueço que estou vivo, fico suspenso parado no tempo; não há dor; não há alegria; constrangimento; eficácia; superação; felicidade; esperança; amor; retorno; expectativa; liberdade; vergonha; pudor; medo; idéias; equilíbrio; apenas um enorme vácuo onde o nada se propaga. Estagnado numa posição, olhando para um ponto fixo no horizonte, além de minhas idéias, ruminava os pontos de idas e vindas de minhas vertigens ante as probabilidades. Um homem, ao qual nunca vi mais gordo, senta-se ao meu lado. Mesmo com o vômito ao meu corpo, também aquele cheiro acre, forte e nauseabundo, não o fez recuar. Apenas sentou ao meu lado e puxou um fumo. Vestia-se bem, um terno bem elegante de uma grife famosa, com listras verticais bem definidas. Seus sapatos reluziam a serenidade de seus olhos. A barba bem feita lhe dava um aspecto de mafioso. Com toda a calma do mundo tirou um isqueiro do bolso e acendeu o cigarro. A fumaça lentamente impregnou o ambiente. O sonho se fez completo, em sua fantasia, as névoas do pesadelo haviam saído de seu abismo. Não senti vergonha, como deveria, em meu estado de sonolência, apenas uma leve paz. Ergui meus olhos em sua direção.
- Você provavelmente não irá se lembrar de mim. – Interpelou o sujeito, antes que eu dissesse realmente algo. Mantive o silêncio.
- Não se preocupe, aliás, não se importe nem um pouco. Não fará muita diferença isso agora. Mas as coisas não podem continuar assim. Isso foi a vida que você escolheu pra si? – A medida que falava, via certa similaridade em seu semblante. Em algum lugar eu havia visto aquele rosto, e não foi longe. – Olhe para você, procure algo que o satisfaça e faça. Não adianta ficar ai sentindo pena de si.
- Não estou sentindo pena de mim, estou vivendo do jeito que posso. – Disse gesticulando a mão no ar.
- Não vejo deste modo. – Proferiu em som macabro, após uma profunda baforada. A fumaça inundou o céu com nuvens poluídas.
- To me fodendo pro jeito que você vê, nem ao menos sei quem é... – Demonstrei um pouco de agressividade, não gosto destes merdas metendo o bedelho onde não são chamados.
- Você sabe muito bem quem sou. Apenas não quer ver a resposta. Esta estampada na sua cara. – As pupilas dele estavam redondas, pareciam duas bolas de boliche. Um tanto estranho estar ali, sentado com tal lunático. O que ele gostaria de encontrar aqui? – Eu estive em muitos lugares, já estive em diferentes pontos do mundo e situações. Vi coisas que a humanidade não gostaria de lembrar, entretanto fica em sua história torpe.
- Mas do que diabos você está falando? – O cheiro do vômito ainda perambulava o ambiente.
- Saia e veja o que pode mudar em você, para que tudo possa mudar.
- Quem disse que preciso mudar? Tenho tudo o que quero, apenas me fugiu uma pequena parte da história.
- E o que somos sem história? O que somos sem o passado que nos condena, ou as ações que nos glorificam? A vida foi inventada para ser feita, desfazer a vida é mais fácil, e fazemos isso todos os dias.
- Pare com este apo furado. Estou construindo todos os dias uma nova estrada, a persigo como se minha vida dependesse disto...
-... E que estrada você pegou agora? Chegou à encruzilhada, está à espera de alguém decidir por você. Está parado olhando as estradas mudarem, sem tomar direção. Está vislumbrado com as possibilidades aparentes e não consegue antever os próximos passos. A busca pela razão é a essência de todo ser que se vele, e saber por saber é apenas mais uma masturbação.
- Não vai falar agora que está tudo em minhas mãos... – Interpelei.
-... Não tem curiosidade de ver o depois de cada estrada?
- Provavelmente me levará ao fim, se eu ficar parado por ali, posso ver as pessoas passando.
- Não são as pessoas que estão passando, você é que está ficando. As oportunidades estão se esvaindo. – Fiquei um tempo olhando para seu rosto tentando reconhecer a fisionomia limpa e bem tratada daquele maluco. A pele macia e bem barbeada, reluzia o sol, sem sombras, sem deformidades. A serenidade ilusória me assustava um pouco.
- A questão é conseguir lidar com o que você tem em mãos. E eu tenho tudo comigo, tudo o que preciso. – Cocei um pouco a barba.
- Concordo de que tenha tudo que precisa, mas não está utilizando nem a metade do que pode. E os planos? – Dizendo isso, alinhou o terno na gola e empertigou-se como um pavão.
- Que planos? – Disse num tom sarcástico.
- Precisamos de confabulações?
- Mas do que é que você está falando?
- O melhor caminho a ser traçado, é disso que eu estou falando. O que você acha que está fazendo nas ruas? Brincando de pique esconde? – Estava mais exaltado, sua fisionomia ficou um pouco distorcida pela sobrancelha.
- Claro, estou me escondendo das coisas que não preciso.
- E você precisa disto? – Afirmou apontando para o meu estado precário. Certamente ele tinha sua razão de ser, entretanto também tinha a minha. Aconteceu um lacônico silêncio. Não sabia o que dizer. – Você nem sempre foi assim, se lembra? – Acontece que eu não lembrava. – O que aconteceu com a sua família? – tentei voltar o assunto, não gosto de me sentir pressionado, ainda mais com assuntos que não faço idéia.
- Eu me escondo sim de coisas que não preciso, existem muitas necessidades que pra minha pessoa não é prioridade, veja bem...
- Não mude de assunto, sabe muito bem ao que me refiro – Interrompeu de sobressalto.
-... As necessidades foram feitas e inventadas, pelo menos estas que estão aí... - desencadeei.
- Muitas foram, outras são da nossa natureza. Se a natureza do homem é ser socialmente aceito, se enquadrar não seria natural? A necessidade é enquadrar o homem a sociedade, através do consumo; do poder; do status; dos vícios; medo; marginalização; padronização; exclusão. Indiferença; ignorância; burrice; falsas ideologias; espetacularização; cosmopolita; liquidez; lixos culturais; tráficos; tráfegos; mesquinhez; monopólios; subjugados; massacre; políticos corruptos; políticas ineptas; desperdício; desamor; precariedade; abandono. O ser humano é peculiar em sua necessidade, junto com a sua natureza. Não cabe a um ser julgar a todos. Impossível afirmar que estas necessidades inventadas pelo nosso modelo atual, sejam as necessidades de um todo.
- estou perdido...
- Respeitar a individualidade do ser, não quer dizer abandonar o coletivo e deixar de dar auxílio às necessidades de subsistência.
- O que isso tem a ver comigo? – O labirinto se formou em minha frente. Não sabia aonde ir.
- Não fuja de si, lembre-se, pense. – Parecia tão fácil lembrar, infelizmente nada me vinha a mente, exceto quando ele acentuou uma palavra, que serviu de chave ao passado. – Gostou do seu almoço? – A palavra almoço soou leve aos meus ouvidos, algumas imagens foram tomando forma em minha visão. Parecia ver realmente o que estava acontecendo, como num filme”.
Dois guardas Municipais se aproximam, estavam afoitos e ofegantes. Sentiram um tremendo asco ao observar Guilherme todo cagado de vômito. O nojo era tanto que saíram de perto fingindo não achar o indivíduo em questão. Um dos guardas ainda vomitou ao se virar. Guilherme conversava com o ar, falando com os ventos e dialogando com o vazio. Alguns ainda olhavam de soslaio a cena, mas seguiam seu caminho sem se importarem muito. Guilherme se imaginava em outros tempos, em outras horas, num lugar distante dali. Talvez ele não estivesse mesmo ali, fosse tudo um espaço perdido no urbano maldito e as vozes submergidas sejam apenas umas reflexões.
Tal qual uma mudança de pensamento, Guilherme via-se sentado num restaurante lendo um cardápio. Estava vestindo um terno bem alinhado. Seu rosto estava barbeado e limpo. A imaginação alimentava sua fome de viver.

sábado, maio 31, 2008

Dramaturgia Orquestral.





As formas foram feitas para serem moldadas conforme as necessidades,
Eu não consigo mais sair do lugar,
Habito a terra sem sentido de ser.
Eu movo as pernas angustiadas,
Tentando me livrar da densidade que me contém,
E acabo afundando em novas aflições.
Talvez eu goste deste sentimento insano e nefasto.
Faz tempo em que me vejo sozinho,
Sem formas,
Sem molde aparente.
A facilidade com que me perco faz tudo parecer um labirinto,
Disforme; cheio de saídas que me levam à lugar nenhum.
Até a sua voz eu perco no meio de tanta dramaturgia orquestral.
Perco as esperanças quando me deparo com o passado,
Pior talvez o futuro,
Contudo o presente é um gozo sem fim.
Pode não ser o certo, talvez,
E mesmo até ser a pior escolha dentre tantas e infindáveis.
Porém são nelas que me finquei,
E são nelas também que me afundo cada vez mais.
Preciso tanto de uma mão,
Preciso tanto,
Que talvez você se perdesse comigo nesta imensidão sem fim,
Nesta voragem,
Neste redemoinho que não cansa de circundar minhas entranhas.
Eu volto ao passado e me pergunto: o que eu faço ali?
Deixando-me levar por estas ondas que me tragam como um vinho amargo,
Quase vinagre.
Erga-me sua mão,
Ou até mesmo seu corpo.
Ajude-me a sair de mim mesmo;
Desta enorme confusão,
Deixando transparecer todas as formas de quaisquer necessidades.
E que a lembrança seja apenas um gozo sem fim.

sexta-feira, maio 30, 2008

Vãos Segundos.







Por mais que eu tente
Os segundos vão
E não voltam em vão

O arfar de uma boca da noite
Insípida pela falta
De todo perfume
em apenas uma rosa
deixada pra trás pela velocidade
Infame das cidades
em meio a lágrima formosa
deixe-me chupar seus quadris
a única paz
que me satisfaz

Por mais que eu tente
Os segundos vão
E não voltam em vão

Não quero chorar
Se não for por você
Deixe-me chupar seus quadris
E lhe mostrar o que podemos ser

Por mais que eu sonhe
Eu sei que as quimeras vêm e me consomem
Atravessando a densa fumaça
Do Skank perfumada
E seu rosto aflora
E despedaça
o vidro de minha doce vida
Estragada

Por mais que eu tente
Os segundos vão
E não voltam em vão

Não quero chorar
Se não for por você
Deixe-me chupar seus quadris
E lhe mostrar o que podemos ser.

sábado, maio 10, 2008

Para Todo Amor; Esta Saudade Sem Fim.





O sol não é mais o mesmo,
Tão pouco a vida em que me vejo.
Prisioneiro de um lugar onde não consigo me mover.
Estou prostrado,
Amarrado aquilo em que fui Rei.
Tornou-se mais fácil perdoar aos outros do que as minhas derrotas.
E sigo amarrado,
Cambaleando entre o silêncio e as folhas que não se movem.
Cobrem nosso nome num banco tatuado pelo nosso amor.
Um amor único
Faz tempo em que não a vejo.
Na verdade nunca mais a vi,
Apenas na memória daquele antigo banco,
Lindo.
Trafego pelos espaços que me restam entre a minha agonia,
Cortante na faca da dor;
E o desespero de sempre sair de um ponto e chegar ao mesmo lugar.
Alguns rostos me lembram à felicidade perdida.
E o sol opaco, ilumina o banco coberto,
Nas sombras do seu desaparecer.
Deixe-me ir,
Não quero mais andar.
Preciso correr de encontro a algo que me salve,
Onde eu possa despertar e esquecer o tempo;
Não passa
Não se silencia em sua boca maldita,
Sempre gritando meu nome,
Chamando-me a seu encontro.
Mas sumiu.
Seu rosto se perde cada vez mais em minha memória,
E mesmo assim,
Perdendo-se no tempo,
Vejo a boca da lascívia colada ao meu quadril.
E todo o gozo se torna lágrima,
Na fronteira entre a fantasia,
Junto às quimeras da realidade,
E o impossível de rever como realmente éramos.
E as folhas crepitam em silêncio,
A cada ânsia do vento de primavera.
As folhas não se movem, assim como eu.
O sol nunca mais foi o mesmo.
Tão pouco aquele nosso banco.
Ainda me lembro bem da tatuagem em que deixamos.
Marcado com violência na madeira.
Para todo amor; esta saudade sem fim.
Que não se extingue,
Apenas me consome a cada suspiro de lembrança.


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Absurdamente Absurdo.

Estes olhos verdes
Embutidos num sorriso de chumbo,
Despertando o que há de melhor
Nos reflexos de minhas pálpebras
Negras, cheias de dúvidas e certezas incertas.
Sou na verdade
Apenas um espelho do ser humano mais ofuscante
Deste astro circundante
Tão cheio de luzes

Meu mundo agora é verde
Da cor dos seus olhos,
Da cor da esperança
Cheios de vida incógnita
Uma dor que nunca se apagará
Ou um rascunho que não vira arte
Fica vazia,
Apenas no rabisco do papel ou na mente
E tudo que é isto
Move meu mundo

A gota de uma lágrima
Esverdeada pelas retinas sorridentes
Emergida da felicidade
Umedeceu meu coração
De lá,
Brotou todo meu amor.
Nem todas poesias do mundo,
Nenhum poeta,
Tão pouco os maiores dos loucos
Junto aqueles dos mais incompreendidos
Saberia exprimir a beleza do meu amor

Aa...As rosas...
Se pudessem teriam seu glamour,
Não só o seu perfume
Tentariam, se pudesse,
Fingir ser da cor de suas retinas

Meu amor é abstrato,
Não é concreto,
Assim suas proporções
São absurdamente tão absurdas,
Não podendo defini-las.
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DESERTO SEM LUA.


O deserto,
Mundo morto sobejo de areias
Só os bichos mais peçonhentos sobrevivem,
Porém
O cacto de esperança sobrevive,
Sempre o último a morrer,
Nunca morre na verdade
Enraizado ante o sol escaldante
A neblina de calor não o toca,
O alicia seduzido,
Fazendo-o quase sumir
Entoando em um suplico suspiro
A brisa lacrimeja uma gota de amor
O mundo sem a LUa,
É o próprio deserto,
Apenas o cacto carrega as ilusões e sonhos
Preenche-me de um vazio
Tão cheio de auguras
Denegrindo minha noite na mais profunda escuridão,
Trevas,
Completa-me de um nada
O mundo sem a LUa
Fenecem as árvores de felicidade
Ramificadas em meu peito
O rufar do coração
Torna-se silêncio,
Não é mundo
A LUa ora por todos
Olhai por aqueles que a amam
Vigia aqueles que a vêem,
Iluminando os caminhos a percorrer
Com toda perfeição harmônica de sua luz,
Emanadas da sublime personalidade,
Sutilmente desenha
Pinta, rabisca em imagens,
O relevo de sorrisos
Percorrido no perímetro da felicidade,
Dos afortunados que a conhecem.
Seu sensível ser
Sangra na ferida do meu passado
O tempo perdido não cicatriza
Minha dor era de não repará-la,
De certo,
Não conhecê-la,
Nunca havia presenciado tamanho milagre,
Um compêndio Glorioso.
LUa,
O prazer,
Todo o tesão de orgasmos
Incontáveis,
Insaciáveis,
O amor que me completa a sacanagem
A língua enche a boca
A vulva perfeita no meu sexo
Da boceta que me cospe a cara
A mesma que me goza a face
Aonde
Cuspo de volta todo gozo
O perfume tragado com mais prazer,
Tudo isto vem da LUa
A razão do meu ser,
Pérvia de sonhos
Prelúdio do amor
Prefácio de bons sentimentos
Tudo aquilo de bom ao me complementar
A satisfação como acabamento,
Conclui o que sou,
Vinda da LUa,
Só da LUa,
Enseja no jovialidade eterna
Assim é meu mundo com a LUa,
E agora,
Luciane,
Dou este meu lindo,
Magnífico mundo a você
Dou-lhe tudo que possuo ou possa vir a possuir
Entretanto
A LUa eu afavelmente
Guardo,
Fico para mim,
Com o mais sublime dos carinhos,
Nesta Saudade que não cabe em mim.

segunda-feira, abril 14, 2008

Diálogos Escatológicos Malditos.




Entrei em casa numa pressa sem controle. O suor começava a escorrer pela têmpora, minhas mãos também carregavam os indícios de um estômago atropelado por merda; apertava firme o punho, fazendo todos os movimentos estabanados. A porta bateu com enorme força, o estrondo ecoou por alguns andares no edifício. Vou direto pro banheiro, arreio a calça e meto um quilo de bosta pra fora. O alívio me toma de imediato, refletindo num leve sorriso. Pego um jornal que já estava no chão a minha frente, não era do dia, mas servia pra passar o tempo. Sentia o cocô saindo espremido entre minha bunda. O odor ainda não incomodava, pois o traseiro tampava a saída da fetidez. O tempo não demorou muito a passar, as notícias cotidianas do caos urbano inflamaram a merda toda; alianças políticas; desgaste político; verbas mal aplicadas; desvio de capital; assassinatos; tráficos; chega. Levantei e para minha infelicidade, constatai que o papel higiênico havia acabado. Isso não podia estar acontecendo agora, estava atrasado pro trabalho, o tempo comia meus neurônios, aliado ao estresse de ter que pensar em cada minuto como tempo perdido de vida, e eu amaldiçoava meu corpo fétido. Os troços boiavam n’água e, no segundo em que me levantei, o perfume já dominava tudo em volta. Não, eu não estava morto, ainda não. Sai casa a fora procurando algo que eu pudesse me limpar. Andava em passos curtos ao redor do apartamento. A bermuda arriada prendia um pouco minhas pernas, fazendo-me andar de forma engraçada. Fui à dispensa e o papel higiênico realmente acabara. Estava literalmente na merda. Sentia os pedaços restantes entre as bandas, incomodava esta sensação. Tinha que inovar. Fui ver se tinha guardanapo; nada também. Os papéis que havia na casa iriam machucar meu rabo. Amassei um bocado de jornal no intuito de deixá-lo mais suave. Limpei-me e senti incomodado ainda. Não houve alternativa se não tomar banho. Merda.

domingo, abril 06, 2008

A Arte Das Artes.






Muitos vêem a arte,
Como a manifestação de Deus nas mãos do homem.
Alguns ainda insistem,
De vê-la como mistério da alma humana
Outros a deterioram como produto,
Onde sua equação sempre terá o mesmo resultado.
Entretanto, a arte é muito maior que isso tudo adjacente.
E infinitamente mais.
Cúmplices,
Bem vindo ao Exorcismo.

terça-feira, abril 01, 2008

II - Vira-Lata.









Abriu espaço no meio do tumulto e correu em direção ao prédio. Chegando às proximidades do condomínio, resolveu não subir pro apartamento, estava com medo do que iria encontrar lá. Mal sabia ele que nada encontraria, porém, até o nada se torna assustador, principalmente quando se existe a busca pelo todo. Continuou correndo em direção a lugar algum, enquanto os solilóquios martelavam infindáveis redemoinhos, oscilando entre as possibilidades reais e virtuais que poderiam lhe preencher de novo a sanidade. Tropeçou em suas aflições e caiu de joelhos, sustentados pelos punhos. Suas mãos ficaram raladas, enquanto um dos joelhos sangrava pela nesga de pano rasgado da calça de linho. Logo se levantou e voltou a correr, as pessoas o fitavam assustadas, contudo as fisionomias que o julgavam, não chegavam a um terço de sua face desesperada. O pulmão já ofegava desilusões de oxigênio, as pernas se derretiam no ardor de seu sangue e, num colapso aterrorizado dos braços frenéticos, os músculos urraram de dor e ardência. Então, decidiu correr mais e mais, num ódio crescente pelo cansaço. Passando pelas ruas em passos largos e velozes, tentava encontrar algum lugar em sua mente que fosse seguro, em que pudesse parar e se reencontrar. Tornava-se algo em vão tais pensamentos. O cansaço aliado ao desespero não deixariam nem os mais sensatos da humanidade raciocinar em soluções. A única solução era correr a esmo, sendo assim, era o que ele fazia; correr; correr; correr; tropeçar; equilíbrio; correr; ultrapassar; seguir; pular; transpirar; suar; correr; percorrer; ver viajar; cruzar; cortar; trombar; derrubar; continuar; observar; despertar; advertir; cambalear; dor; perseguir; fugir; esquecer; sumir; perder; voar; sobrevoar; imaginar; sonhar; fantasiar; perder-se; percorrer-se; perder-se; correr; correr; correr; imaginar. Ao trombar com uma senhora carregando um cachorro no colo, ambos contorçam-se no ar e caem feito jaca podre. Alguns mais prestativos prontificam-se para ajudar a dona se levantar. Nosso protagonista já fazia a curva na esquina seguinte, quando começam a procurar o responsável por aquele reboliço todo. Nada parecia deter este corpo em movimento, em determinadas situações, o corpo humano pode ser um tanque imbatível, passando por cima de qualquer outro corpo. O tempo parecia correr junto com este homem. Determinado momento suas pernas não agüentaram mais e ruíram num estrépito seco. Resfolegando a dor de um cansaço descomunal, suas mãos agora tremulavam apertando as areias do Arpoador. Experimentou o corpo fenecer por entre a areia, parecia afundar na areia movediça. Soterrado pelo peso dos grãos, sacudia-se com enorme terror. O resto de energia que sobrara em seu cadáver, fora usado por estes últimos movimentos ébrios. As trevas dominaram seus sentidos num último suspiro de naufrágio.
Logo se viu caminhando trôpego pelas ruas tumultuadas do Centro da cidade. Não sabe como chegara ali e, sem saber, nem pra onde se dirigia, abraçou seus passos com as pernas com grande velocidade. Vestia-se bem; terno de boa costura, gravata de cor branda, uma camisa social de linho elegante e os sapatos engraxados. Seu cabelo esta bem penteado e firme. Sentiu-se alinhado, até esquecendo dos momentos fúnebres que anteciparam esta sua inda, sabe-se lá pra onde. Carregava uma pasta bonita de couro. Deixou suas pernas lhe guiarem, quando se viu adentrar um luxuoso prédio na sete de Setembro. Realmente era um homem importante na sociedade; um empresário da alta classe; um advogado bem sucedido, quem sabe?... ; a motriz do sistema invólucro contemporâneo. O sorriso alegrou-lhe a face consternada pela dúvida. O ascensorista perguntou:
- Doutor Guilherme! – Apertou o andar 23 – Vamos que vamos. Bom dia meninas. – Algumas mulheres do elevador responderam. – Bom dia meninos. – Houve um pequeno silêncio. – Os meninos são sempre assim. – O senhor Ascensorista entreabriu um confesso sorriso. Virou para nosso protagonista e indagou - Como anda o escritório? Em ponto de bala?
- Alguns tiros saindo pela culatra, outros acertando o alvo em cheio. – Não sabendo o que responder, fez este breve comentário estúpido.
- É né? Mas a vida é isso mesmo Doutor. Que nem o meu trabalho; altos e baixos. – A porta se abriu – Bem, Boa sorte Dr. Guilherme. – Ouvindo o senhor, abriu espaço entre outros presentes no elevador, e saltou no andar. O sol cegou sua vista, fazendo com que, num reflexo instintivo, cobrisse a têmpora com a palma da mão, tal qual uma viseira. Aproximou-se da janela e olhou a paisagem. Lá de cima via-se todo o centro da cidade, o horizonte era magnífico, estonteante; um poeta choraria. O dia estava quente, enquanto as pessoas andavam cegas atravessando a rua de um lado pra outro, num frenesi traumático. O vento lhe borrifou um agradável aroma de perfume, olhando para o lado ele vê uma mulher gostosa de aproximadamente um metro e oitenta de altura, loira, coxas carnudas, malhada e a bunda de satã.
- Doutor, o senhor esta atrasado para a reunião sobre o orçamento anual da empresa. Estávamos apenas esperando o Senhor chegar. – Ela realmente seria muito bonita, se não tivesse uma cara de puta. Tinha um sorriso cínico e um olhar mentiroso. Estava na cara que seria apenas por uma noite, ou até o seu dinheiro acabar. Todavia ele a olhou desconcertado, parecia gostar deste tipo de mulheres, promiscua cheia de excitação e putaria. A olhou desejando todos os poros de sua pele, cada fio de seu pelo hirto e junto o espirro de sua boceta.
- Já estou indo. – Falou de forma ríspida e olhar frio, como se concentrasse em algo. Queria esconder que não fazia a mínima idéia do que acontecia ali. Sorriu de si mesmo, no momento em que a secretária lhe dava a bunda pra espiar indo pra sala. Sua imaginação floriu inconscientemente, despertando uma imensa volúpia ao olhar aquela bunda se mexendo lentamente. Ficou meio catatônico a imaginar como seria ter ela em sua boca; beijar e chafurdar em sua intensidade lascívia. Guilherme voltou a olhar pela janela deixando o sol queimar sua face, servindo de motriz pro seu raciocínio dividido em matizes de incompreensão. Não conseguia mais destingir a realidade dos sonhos, a mancha ia crescendo e misturando as cores, fazendo-se perder os tons; do que é o que. Deixou-se levar pela mescla de tonalidades, mergulhando nas possibilidades aparentes. Não importa o real, ou não real, importa é a vida, o único vício que se presa. Guilherme é um contaminado inveterado por tudo aquilo que lhe ocupa a mente longe de si. Provavelmente nunca se viu; igualmente pessoas continuavam correndo como formigas, atravessando de um lado a outro, esquecendo das paixões, de suas metas reais e aceitando tudo que lhe impõe. Os prédios amenizavam a claridade, todavia não evitava os raios solares. Era um dia cálido e o asfalto, se observado ao longe, expirava densos hálitos de calor. O desejo aflorava junto ao sol. A cordialidade da luz trazia os sonhos mais loucos, e nem o medo de viver, arrancaria as raízes de sentimentos tão intensos. A vida revigorou em seu coração, no instante que ele se virava para adentrar a sala de reuniões. A confusão martelou seus sentidos de maneira perturbadora.
“O que faço aqui? Cumpro meu dever. Mas dever com quem? Comigo. Família? Não sei... Tenho uma? A verdade é que não sei mais... Você sabe. Talvez eu tenha feito; seguido; alcançado; brigado; almejado; buscado; conquistado o sonho que tanto fantasiei. Ou tudo não passou de uma fantasia realmente. Aqui pareço ter uma boa vida; status; poder; respeito; um bom salário; não me parece ser tão difícil; aqui sou eu, sou muito mais eu”.
Seu reflexo estampado no vidro da porta o acalmou.
“Sim... Agora sim”. Suas mãos contornavam o queixo e ia deslizando por toda face, tentando reconhecer a pele que lhe adornava.
“Na entrada da sala um pé teima em uma dormência, parecia que ele queria ir a outro lugar. Puxei a perna, já que o pé é preso nesta, e entrei no recinto com todos me olhando assustado, alguns com cara de palhaço, num meio sorriso. Não encarei ninguém, apenas maldisse de minha cena ridícula em sussurros. A sala estava cheia. Havia uma mesa grande no centro e, meio oval, apenas restava um lugar, provavelmente o meu. Sentei-me e comei a dar uma olhada nos papéis que estavam a minha frente; contratos, portifólio; planilhas; contas; estimativas; números; N; contratos; discrições; orçamento; e um filha da puta em pé na minha frente com cara de cu. Aquilo tudo me parecia muito bom inicialmente, mas algo arranhava em minhas entranhas e não podia ser o café da manhã. Comecei a folhear a pasta que aguardava minhas objeções em minha frente; cortes; verbas; vínculos empregatícios; terceirização; contratações; estimativas; cálculos; e meu estômago me avisando sobre algo que eu não fazia a mínima idéia do que poderia ser. Bebi um copo d’água e voltei-me pra pasta. A gravata apertava minha garganta e tive uma crise de falta de ar, enquanto minha testa apresentou o primeiro indício de uma lágrima de suor. Enxuguei a face com o lenço e bebi mais um gole de água. Não escutava direito o que me dizia o interlocutor da reunião. Tentei focar em suas palavras, entretanto me pareceu meio confuso; algo sobre corte de funcionários; talvez sobre a importância dos acionistas; quem sabe a fórmula do crescimento dentro das estimativas de mercado. A minha volta todos folheando suas pastas, alguns entediados, outros entretidos. O que se diferenciava, eram os olhos. Olhos esbugalhados no mais extenso frenesi, composto por um turbilhão incansável pela falta de tempo. O ar de cafeína perfumava o ambiente, na verdade impregnava. Mais olhos mortos cheios de dor, furiosos e ambiciosos. Talvez o morto ali seja eu, por não compartilhar das mesmas filosofias furibundas. Não sei como havia chegado até este cargo, precisava fazer algo a respeito. Afrouxei a gravata e tirei o paletó num movimento lento e singelo. Pessoas me olharam desconcertadas, só pude lamentar e colocar o paletó atrás de minha cadeira, pendurada no encosto. A reunião prosseguiu num ritmo rápido, eu não conseguia entender algumas palavras. Minha velocidade caia gradualmente, no tempo em que minha testa voltou a sentir o calor insuportável que me consumia. Abri um pouco a camisa, deixando um pouco dos meus pêlos do peito saltarem, deixando um ar de repugnância e desejo na sala. Continuava indiferente no ambiente, apesar de sentir o desconforto alheio.
- Com licença – Levantei-me em movimentos lentos e confiantes. Cansado de ser o insuportável, esqueci o que me falavam da extremidade da mesa oval. Dei de cara com a secretária, uma feição impaciente e preocupada complementava seu estilo de puta.
- Esta tudo bem com você, Dr. Guilherme? – Parei estático e, apático, encarei-a de frente. Ela continuava me olhando com receio.
- Não estou me sentindo muito bem, vou me confinar em minha sala. Fale que eu estou com dores terríveis de cabeça. – Voltei andar em direção a sala, mas tinham inúmeras salas, estava meio perdido, então tomei o caminho da direita.
- Dr. Guilherme, sua sala é pro outro lado. – Ela sorriu. Gostei do som de seu riso. Realmente excitante. Caminhei até uma sala onde havia uma foto minha com uma mulher de uns quarenta anos. Não fazia a puta idéia de quem poderia ser. Porém, parecíamos bem juntos. Sentei na frente do computador e o liguei. Comecei a mexer em tudo na minha frente. A maioria documentos e contratos. Algumas passagens descansavam em uma gaveta; conexão Rio/ São Paulo. A sala é composta com uma estante, um computador, uma escrivaninha e um sofá. A janela é coberta por um vidro escuro, não deixando o sol iluminar direito a sala, ainda mais porque a cortina esta fechada. Sentei na frente do computador e comecei a vasculhar os arquivos de uma pasta chamada; Planilhas. Automaticamente meu Msn apareceu ligado, na tela piscou o nome Cristina perguntando se eu estava ali. Decidi ignorar. Mas esta mulher me pareceu alguém bastante insistente, beirando a inconveniência.
- Fale comigo. Precisamos conversar. Não dá mais pra sustentar este seu silêncio. – Algo despertou minha curiosidade. Não fazia a puta idéia de quem seria, mesmo assim dei corda.
- Sim?
- Por q vc está fugindo de mim?
- Eu não estou fugindo.
- ta sim! – um míni desenho animado saltou a tela, escrotamente.
- Então vamos nos encontrar.
- Claro.
- Que dia?
- Amanhã no CCBB.
- Que horas?
- Na hora do almoço. Umas duas horas. – Não esperei ela responder. Desliguei a porra do Msn e o terror de súbito reaparece na tela do Computador. O rosto desconhecido me perseguia grudado em meu pescoço. O reflexo mostrou meu temor em carne e vida; como voltou à tona esta face tão desconhecida? Este rosto não é meu. Tentei arrancar minha cabeça num movimento violento, no tempo em que certa tristeza se apoderava de meus sentidos. Em meio ao meu colapso, derrubo o computador no chão, fazendo-o em alguns pedaços. A secretária entra assustada com cara de cu.
- Meu Deus Dr. Guilherme o que esta acontecendo? – E eu não sabia a puta idéia do que estava acontecendo. Ela grita por ajuda e eu corro em direção ao elevador, precisava dar o fora desta irracionalidade; precisava me reencontrar. O elevador não havia chegado, vindo uma multidão ao me redor, correndo com palavras de ordem inexpressivas e sem sentido. Imediatamente corri para a escada e comecei a descer com alguns idiotas ainda ao meu encalço. Logo todos corriam atrás de mim pelas escadas. A escadaria estava meio escura, não dando para perceber o que era o que, quem era quem. A única figura certa que podemos apontar; eu descendo as escadas num pânico nunca vivido, nem no seqüestro relâmpago em que sofri temi tanto. O medo não era apenas do breu que se alastrava sobre minha pessoa, e sim pela razão que se esvaía sob meus dedos trêmulos e inseguros; de que adianta os sentidos se eles não significam nada? Meus reflexos me deram uma rasteira em plena corrida, dando uma impressão desleal de desequilíbrio. Entretanto, justamente este falso movimento me fez cair sublime sobre um dos degraus e me partindo as costelas. A dor lancinante explodiu meus pulmões em pequenas gotículas de sangue; fora realmente extraordinário; e eu não fazia a puta idéia do que estava acontecendo".