terça-feira, julho 14, 2009

Cotidiano Às Avessas.







Cotidiano às avessas.

Virava as páginas com precisão, parecia saber o que procurava. Apesar de sua boa condição social, Guilherme comia às vezes em restaurantes mais humildes, de comidas caseiras e de pratos regionais. O cheiro da comida que vinha da cozinha, parecia conter o perfume da nostalgia. Seu estômago sentia reviver e revirar algo em suas paredes; mostrando indícios de um nervosismo e de lembranças adormecidas. Junto com o tremor das paredes intestinais, o cérebro automaticamente lincava às lembranças; as imagens vinham lentas e aos poucos, com informações que haviam sumido de sua consciência, tal qual a morte na imaginação de uma criança. A paisagem lhe falava obscuridades, fatos que ele decidira esquecer, acontece que as imagens nunca nos abandonam, elas teimam em continuar vivas ao redor, nos lembrando de tudo. O restaurante fica na Cinelândia, e na praça todo um mundo novo o observa de soslaio; um mendigo e todas as suas tralhas se instalavam num dos bancos da praça; outros ficavam ao redor da estátua, conversando sabe-se lá o que, talvez não entendesse, ou talvez achássemos banal de mais, não importa muito, Guilherme olhava atento a tudo, na medida em que buscava um prato no cardápio a sua frente. Escolheu língua com arroz de brócolis, um suculento prato numa textura borrachuda. A mente de Guilherme rabiscava o esboço do que seria sua tarde, não precisaria voltar ao escritório, já havia adiantando todos os processos, e já haviam pessoas encarregadas de duas audiências, sobre o que é o litígio não importa, o mais importante é que Guilherme não aguentava mais as novelas e picuinhas em que protagonizava no seu ambiente de trabalho, sempre histórias e casos entre as mediocridades e invenções dos funcionários do escritório, até a secretária entrava no bojo, e por falar nisso, já era ela ligando para Guilherme:
- Oi. – Uma vez melodiosa o excitava do outro lado da linha.
- Tudo bem? – Acenou para o garçom trazer mais uma rodada de chope.
- Ainda está de pé? – Mais um clichê do cotidiano. A secretária e o chefe. Porém existe uma peculiaridade nesta secretária, e logo saberemos qual é.
- Claro. Pode chamar a menina. Mas eu quero uma liberal, sem pudores.
- Não se preocupe Dr. Guilherme, A Priscila é do jeito que você gosta, e ainda por cima Ruiva, dos pés à cabeça. Uma delicia. Uma vez me disseram que comer um cu ruivo dá sete anos de sorte.
- Hum... Interessante. – Guilherme esboçou um breve sorriso. - Quanto mesmo vai sair a brincadeira?
- Trezentos reais, duas horas.
- Mais o taxi? – disse coçando o queixo ansioso, essas conversas o deixavam excitado e ao mesmo tempo apreensivo pelo prazer.
- Não, o taxi já está incluso.
- Então, ligarei dum motel em Copa, quando eu já estiver hospedado.
- Anote o cel direto dela, disse incisiva. - Anotado o número ambos desligam formalmente. Guilherme reparava na sucessão dos acontecimentos que lhe cercavam; Alguns camelôs corriam desnorteados carregando suas muambas, de certo estavam fugindo do rapa; a grande revolução em que vivemos imersos na juventude acaba se desfazendo em poucos casos de pessoas em busca de soluções para um cotidiano mesquinho. As responsabilidades vão tomando conta de abrupto, devorando seus sonhos tal qual a lava; quente e traga tudo a sua frente, derretendo sonhos e realidades invertidas em seus sentidos. Aos olhos do nosso parecer, inebriado pelo cisto do torpor, tudo faz sentido desde que possamos justificar nosso esmorecer apenas nos hábitos do cotidiano e na velhice. A resposta da vida não está apenas no convívio com o próximo, está na relação da humanidade com o todo; com os outros seres; com as outras formas; com a própria vida em si; com a morte que sempre lhe espreita nas curvas do acaso. Guilherme apenas existia de forma opaca e sem brilho, os sonhos se tornaram escolhas difíceis, assim como toda poesia se tornara o discurso de algum político. Até aquele rosto de outrora não lhe pertencia mais. Suas necessidades eram poucas, porém vis. O prato chega à sua mesa. O garçom o traz numa bandeja equilibrando com determinada maestria. O gingar do corpo a cada passo em falso, hesitante e descompassado, passa no minuto seguinte o detalhado movimento gracioso e decidido de um malabarista. O Garçom coloca a mesa com agilidade aliada a velocidade, enquanto Guilherme observa o homem trabalhar. Os sentimentos diversos começam a divergir em Guilherme, trazendo um desconforto obsceno, começando a mexer bastante as mãos e a precipitar uma paranóia de perseguição. Após o Garçom o servi-lo, começou a comer lentamente. A Língua tinha uma textura borrachuda, não era uma das melhores, mas estava de bom grado. Num ímpeto incontrolado as lembranças sobrepujaram o sabor da carne, e mastigando olhando seus devaneios, as imagens da imaginação saltaram tão reais que o fez parar por completo. Engoliu e continuou olhando para frente, absorto pelas quimeras que o tragavam em sua acidez de loucura. Vagava em um passado distante, onde ainda acreditava que seguia sua personalidade cegamente, contudo apenas ia seguindo o que lhe empurravam com obrigação, nunca tentou descobrir sua verdadeira vocação; a música ficou oprimida pela falta de incentivo; o esporte era estrelismo demais, tinha de se expor excessivamente, algo que para Guilherme era doloroso; qualquer outra arte fora desestimulada pelo meio, forjado ao meio um nobre família de empresários que o estimulava apenas a seguir a estrada da família, sem se conhecer, sem nunca se encarar no espelho e saber verdadeiramente quem é; o rio ditava e a mente se afogava em suas águas geladas de tradição familiar. Tirou do fundo de uma recordação uma imagem do passado em que jogava futebol pela primeira vez. A vergonha de entrar em campo até hoje o deixava nervoso, o coração acelerava e os ouvidos recordam de seus amigos gritando e xingando devida sua péssima atuação. Não que seja péssimo jogador, mas nervoso ninguém pode ao menos saber se tem o gosto pelo assunto. Guilherme era franzino e usava óculos redondos, tinha até um molejo nas pernas, contudo ao meio da tensão, não conseguia ter domínio sobre suas ações. Percebia agora que sua vida se tornara um retalho de escolhas, só que as decisões foram impostas pelo meio em que vivia, e não pelos gostos que sua personalidade exigia. A folha em branco que fora sua alma, se tornou o rascunho daqueles que o cercavam. Guilherme olhava contemplativo para sua vida, buscava soluções para entender, porque depois de tanto tempo resolvera abrir sua Caixinha de Pandora. Terminou de comer, não pediu a conta, apenas deixou o dinheiro em cima da mesa, em baixo do azeite, pois já sabia quanto era, inclusive os dez por cento com um troco a mais. Levantou ainda absorto em sua mente, preso nos mundos do passado. Passou por uma loja e viu um reflexo no vidro da loja, não parecia seu rosto, isso o assustou, sua fisionomia mudou num relance, parou e deu um passo à trás, para rever de quem era realmente aquela face. O reflexo estava lá, era realmente o seu rosto no espelho que formava o vidro com a luz forte. Seu rosto na vitrine o tranqüilizou, por uma fração de segundos achou que tinha visto uma aberração em forma de si; o que fazer, quando você não é você, ou quando você nunca foi você mesmo? As perguntas vinham de sobressalto atropelando o bom senso. Cortou num passo decidido a Praça da Cinelândia, quanto mais rápido chegar em casa melhor, pois sua mulher só chegaria na próxima semana, dava tempo para uma boa foda pra relaxar os vícios. Entrou na fila dos bilhetes atrás de uma Senhora de Cabelos Ruivos, de estatura mediana e de cintura ligeiramente larga, causa de uma idade avançada. Seu rosto era bonito apesar das cicatrizes do tempo. Imaginou que esta Senhora já fora sorte de vários caras, devido ao seu cu Ruivo, conforme afirmou a Secretária. O sorriso novamente lhe enfeitou a face. Um homem de traços efeminados passou e achou que o sorriso fora pra ele, e sorriu de volta com um olhar malicioso. Guilherme não gostou nem um pouco disso, transformou seu sorriso numa fisionomia má, de olhar compenetrado e frio, apenas para mostrar que tudo fora um grande equívoco. O fato irritou Guilherme, talvez pelo fato de ainda estar confuso. Mandou um foda-se a tudo e voltou a caminhar num passo rítmico. Passou por uma banca, meio inebriado olhou para as noticias incredulamente, tudo parecia distante demais do seu pequeno mundo virtual. Comprou um exemplar do jornal e retornou ao seu caminho.

quarta-feira, março 11, 2009

Tudo se voltará ao nada.








O tempo é democrático
O mais
E talvez único acontecimento democrático que circunda os homens
Seu hálito encanecido nos saúda todas as manhãs
E nada além da eternidade para dizer;
É chegada a hora de todos renascerem.
Não existe fuga,
O tempo nos mostrará todas as verdades que fingimos não ver.
A escolha senil de não fazer nada,
Apenas desejar ir de encontro ao fim,
Não trará a piedade do tecido.
Deixe-se sentir,
Deixe-se provar.
Amanhã as palavras irão sumir e não trarão sentido,
Tão pouco respostas,
E não pense esperar significados nos olhares dos que lhe julgam.
A letra da canção continuará em suas melodias indecifráveis,
Mesmo perdido poderemos nos encontrar em pequenos atos,
Minuciosos toques,
Sutil.
Pergunte a primavera se as folhas cairão no outono,
Pelo menos questione se o sol brilha por ti.
E a confusão é a chave de qualquer ordem,
Ouvindo a perdição do contemporâneo.
Fortalecendo as fronteiras imaginárias do caos.
A responsabilidade não é a culpa de carregar os cativados,
E assim que o vazio se tornar completo
Deixará uma nódoa de lágrima esquecida no canto da bochecha.
Poderemos rir para amenizar a dor,
Talvez até gargalhar,
Contudo cedo ou tarde não poderemos voltar como fomos um dia,
Não é fácil envelhecer,
Não é difícil aprender a viver,
Apenas tenha consciência de que a verdade sempre é dita,
Mesmo depois de sua ida,
Ainda falarão de ti.
Não se esqueça de se despedir aos poucos de todos,
A cada dia é um dia perdido,
Uma fração a menos do seu universo que se esvai.
Contudo,
Ainda podemos ter a certeza de uma única afirmativa,
Mesmo que lhe tirem tudo,
E mesmo que a vida lhe fuja aos poucos a cada milésimo de segundo,
Tudo se voltará ao nada,
Enquanto o nada renascerá em tudo.

sexta-feira, dezembro 12, 2008

Novo Lançamento Dia 13 De Janeiro.




A Matilha do Cachorro Louco. Uma forma de análise da sociedade carioca contemporânea, sempre buscando retratar os transtornos e conquistas
daqueles que a compõe. O livro não tenta se dedicar apenas às diferenças sociais de classe, e sim ao homem real convivendo em tons de cores distintas e em diferentes situações. A Matilha do Cachorro Louco é uma simbologia a própria sociedade, tentando mostrar de maneira metafórica, os vícios, as paixões, as perdas, as vitórias, os tropeços, as corridas, a vida e a morte da moldura, das formas concisas e concretas de ser. “O Mundo pintado em fantasias, servindo de molde o uivar de uma realidade perdida em lobos e feras; A moldura forjada em máscara de personalidades e banhada na psicologia de personagens decaídos”. O livro insere a sociedade em um raciocínio comum, reflexivo, sobre escolhas e convívio. Sem redefinir, ou criar rótulos, traz conjecturas sobre as escolhas e suas conseqüências. A Matilha do Cachorro Louco delineia diferentes tipos de linguagem dentro de um mundo de palavras trazendo em si, a junção música/texto dentro de uma nova linguagem literária. Recomenda-se ao leitor ouvir a música (exigida pelo próprio texto, o que, contudo, não é obrigatório); uma leitura que ligará o leitor ao escrito, proporcionando participação junto ao personagem. Uma unidade. A Matilha do Cachorro Louco busca despir a literatura em suas formas de influência mútua entre leitor e os escritos.

sexta-feira, novembro 21, 2008

Lançamento Do Livro Dia Nove (9) De Dezembro.



Editora Multifoco.
Lançamento Dia Nove(9)de dezembro.
19 Horas.
Av. Mem De Sá. 126.
Lapa.
Tel. 2222-3034.

Aceita Cartão; Visa e Master.

quarta-feira, novembro 12, 2008

Um Mundo de Reificação Total








Prefácio Escrito Por Carlos Lima, Do Livro; A Matilha Do Cachorro Louco;



Imaginai o mundo que Marx previu em O Capital, imaginai um mundo após o apocalipse capitalista, imaginai um mundo sem amor, sem piedade; um mundo sem utopia de qualquer espécie, é este d’A matilha do Cachorro Louco. Imaginai Céline numa viagem ao fim do esgoto, a Noite das Walpurgis sem Goethe e Meyrink, Adrian Leverkuhn sem Thomas Mann. Imaginai o livro que Henry Miller não escreveu: O Pontapé na Bunda de Deus. Imaginai o mundo de Maura Lopes Cançado onde o Hospício é Deus, mas um deus desativado e deletado, totalmente alienado de qualquer resquício humano ou então, o mundo transformado na Enfermaria no 6 de Tchecov: “abandonai toda esperança, os que entrarem”.
Este é o mundo d’A matilha do Cachorro Louco, mundo da concentração total da reificação do Capital onde o humano não existe mais, o futuro sem passado, o passado sem presente, o presente sem amanhã; não mais numa ciranda financeira mas tão somente a fusão e confusão na concussão do êxtase enantésico da suruba financeira. Consola-nos neste Inferno de Wall Street, o fragmento de Taturema do canto II do Guesa Errante do poeta Joaquim de Sousa Andrade:
“- Indorum libertate
Salva, ferva cauim
Que nas veias titila
Cintila
No prazer do festim!

- A grinalda teçamos
Às cabeças de lua:
Oaca! yaci-tatá
Tatá-yrá!
Glórias da carne crua!

- Missionário barbado,
Que vens lá da missão,
Tu não vais à taberna,
Que interna
Tens-na em teu coração!”
Carlos Lima.

sábado, outubro 04, 2008

Esquecidos Por Deus.









- Se nos pegarem, estamos fodidos. – ao longo da estrada as antenas surgiam, enfeitando o céu negro. Alguns casebres abandonados ao nada mostravam vidas com suas luzes tremendo no escuro. Como alguém poderia viver afastado do todo? Talvez, realmente, fosse uma boa solução, saber que ai nada irá lhe alcançar, a não ser a maldita televisão, entretanto seria uma escolha sua. Não demorou muito para chegarmos numa cidade de beira de estrada, não consegui ver o nome dela. Tivemos que diminuir um pouco a velocidade, sempre nestas cidades de beira tem um ou dois pardais. O comércio também é intenso nestas áreas; posto de gasolina; lojas de eletrodomésticos; mecânicos; restaurantes; lanchonetes. Quase tudo fechado, contudo havia um restaurante aberto; Texas Grill. O que não era bom, pois deu abertura pra seguinte frase de Beiço.
- Porra, to na maior fome, vamos parar naquela churrascaria...
- Excelente idéia – Igor se pronunciou.
- Pelo visto sou voto vencido. – Extravasei.
- Encosta aí, Igor.
- Não é bom ficar dando mole, nós estamos com pressa, temos drogas no carro, Caralho!
- Deixa de ser neurótico. Vamos comer rapidinho. – Beiço rebateu. – To na maior fome.
- Vamos continuar a viagem, caras.
- Aí, a carne deve ta boa. – Disse Igor. Era inútil relutar, quando vi já estávamos estacionando o carro no estacionamento do restaurante. Na entrada tinha um boneco ridículo montando uma vaca gorda, gigantesca. Descemos todos do carro.
- Vou dar uma mijada. – Comentei.
- Também quero... – Beiço esperou um pouco, como se esperasse alguém chegar de carro, todavia nada aconteceu.
- Boa idéia. – Finalizou Igor. Pegamos um corredor de tijolos amarelos, o que me fez sentir no mundo do Mágico de Oz, e eu procurava um cérebro por andar com estes dois idiotas. Estava frio, gelado para ser exato, ventava um pouco e meus pêlos arrepiaram todos, senti meu nariz gelar e minhas orelhas congelarem; tremi. Fiz uma concha com as mãos e soprei um bafo quente dentro, logo em seguida esfreguei uma contra a outra para aquecê-las no atrito. O banheiro era ainda mais frio, por conta dos azulejos e de seu tamanho. Tinha uns armários também presos na parede. Havia cinco funcionários lá dentro se arrumando e gritando ao conversarem. Deviam estar indo embora, pois haviam acabado de tomar banho e colocavam a roupa e arrumavam umas sacolas para levarem. Gritavam muito, gesticulavam, faziam uma baderna. Nisso Beiço se aproxima e comenta baixo:
- Porra, vai dar merda. O Igor não gosta destas balburdias; gritarias sem sentido.
- Cuida dele então, o amigo é seu, eu vou mijar. – Não deu tempo de evitar o que estivesse por vir, pois Igor se trancou numa das cabines de privada. Os cinco continuaram com a balbúrdia.
-... Mas não tinha jeito mesmo, você viu as roupa da menina? Era uma cachorra! – Gritou um malandro mexendo numa sacola, colocando um uniforme dentro, talvez. Não deu pra ver muito bem. Beiço observava tudo e também prestava atenção na porta da cabine de Igor. Outro dos funcionários segurava o jornal aberto e folheava constantemente entre as notícias. Trajava uma camisa vermelha e uma calça azul escrota. Ele já estava pronto, parecia esperar o resto do pessoal.
- Também acho que ela não deveria andar com aquelas roupas, chamou atenção porque quis. – Disse outro colocando um casaco azul. Este homem era calvo e de olhar cansado, e seu nariz de batata comandava a estética do seu rosto.
- Deus não gosta desta pouca sem vergonhice... – Gritou outro funcionário mexendo num dos armários. Guardava seu uniforme e retirava uma bolsa com algumas tralhas dentro. Carregava no rosto uns buracos na pele, marcas do tempo, ou da falta de cuidado talvez, de oportunidades. Todos eles falavam alto, gesticulavam, ou até gritavam sem pudores, provavelmente esqueceram que também somos clientes. – Aquela menina deveria encontrar com deus, cedo ou tarde, por bem ou por mal. Eu conheço o poder da reza, e digo mais, tenho provas e testemunhas de seu poder. Não dá pra andar por aí com a roupa que quiser, tem que ter decência. – Este cara é viado, pensei. – Teve o que merece.
- Você viu que mataram outra puta de beira de estrada? Joga esta camisa aí pra mim, moleque! – Berrou o homem de casaco azul e seu nariz de batata.
- Bom que nos livrou de outro mal. - Um quarto funcionário colocava uma calça furada. Era o mais novo deles, por isso o chamavam de moleque.
- Hoje temos que ir ao culto, salvar algumas almas. Temos que continuar patrocinando a fé neste país, só assim conseguiremos a salvação divina. – Falou alto o homem de nariz de batata. Um quinto homem observava calado, apenas vazia expressões do tipo, que se fodam estes lunáticos, algumas vezes balançava a cabeça em sinal negativo. – Tudo está nas mãos do Senhor. Eu estou falando pra vocês, não deixe que o demônio engane vocês, ele vem em diversas formas; vem no corpo de uma mulher; vem nas drogas; vem no desemprego; vem na pobreza... – Parecia que o Nariz de batata estava se empolgando em seu discurso. Com certeza também era pastor, ou tinha a pretensão de se tornar um. – A felicidade está na pele de Jesus, enquanto o amor está em sua barba. Existe um caminho muito próximo entre o Demônio e o Senhor. Um passo e vocês podem cair em vícios. – Gritava o homem. – Vejam estes drogados, por exemplo; estão infestando o mundo com sua impureza. Só Jesus no coração desta gente pra expulsar o Demônio. – Eu estava lavando as mãos, enquanto beiço secava as suas em alguma toalha papel.
- Acho que nem Jesus pra salvar os drogados. – Disse rindo o Moleque.
- Você está duvidando do poder de Jesus? – Exclamou o Nariz de Batata. – Os drogados são pessoas fracas de cabeça que se dão para as drogas. Nós temos que levar Jesus às pessoas perdidas como as putas, os drogados, os mercenários, os assassinos, os homossexuais, os que dão o cu, os que fodem com animais; só Jesus salva. – Nariz de Batata falava bem alto e gesticulava.
- Estas pessoas merecem a morte. – Comentou o homem com uns buracos na pele.
- Se eles encontrarem Jesus, não precisarão morrer. – Vociferou O Nariz de Batata. – Caso não queiram encontrar com Nosso Senhor Jesus Cristo, a morte é o melhor caminho, porque eles já estão mortos, só não sabem disso. E quando a vontade de Deus reinar na terra, estas cachorras sumirão e a paz voltará a reinar. – Igor sai de repente de sua cabine. Um olhar taciturno adornava sua fisionomia. Seus tiques estavam violentos, fortes como nunca estiveram. Suas pernas chutavam o nada após um passo, contudo ele vinha andando sem aparentar muito se incomodar com ninguém ali. Reparei em sua face um pó branco preso nos pêlos de sua narina, certamente ele deu uma carreirinha de leve. O Nariz de Batata não parou seu discurso e continuou berrando. – Hoje de manhã temos que ir agradecer a Deus, desta benção tão grande que é a vida. Vamos patrocinar a fé pelo mundo afora.
- Por que esta gritaria toda? – Igor se aproximou do Batata e falou bem calmo, num olhar frio e impetuoso. - Fale baixo, por favor, eu sou drogado, não surdo. – Todos ficaram desconcertados. Parecia que ele não havia ouvido nada do que se disse no banheiro.
- Calmo lá, amigo. Estamos... – Tentou argumentar Batata.
- Calmo é o meu pau que sabe esperar gozar na hora certa. – Igor parecia não querer muita conversa. Colocou o dedo na cara do Batata, ele não parecia se importar em estarmos em menor número; foda-se, o guerreiro sempre vive, não importa a guerra, não importa os meios, o que importa é o massacre, o fim.
- Igor, qual foi, cara? – Beiço se intrometeu no pequeno conflito. O cara de Buraco franziu as sobrancelhas, dando um passo pra trás ficando perto do seu armário; O sujeito que lia o jornal começou a dobrá-lo; O Moleque de calça rasgada fez uma careta de medo. Uma tensão começou a pairar em todo o ambiente. Eu tive sensato receio, o medo dominou minhas retinas, junto a minha imaginação. Comecei a imaginar possibilidades, alguém podia estar armado, um destes malditos pastores podiam ser um ninja disfarçado. A realidade às vezes voa em todas as possibilidades possíveis em minha mente, o que deixa de ser real, e passa a ser devaneios sem sentidos. Comecei a observar os movimentos de todas as pessoas no recinto, e dei uns passos em direção ao homem com os buracos na pele, caso ele tentasse tirar algo de seu armário. – Não precisa disso, deixe estes malucos na dele... Qual foi?
- Ouça seu amigo, meu caro. Jesus desaprova a violência, vamos conversar e ficar em paz, na paz de Nosso Senhor Jesus Cristo. – Disse o Nariz de Batata. O moleque não disse nada, apenas olhava assustado. Devia ter uns dezoito anos. O homem, ao qual havia dobrado o jornal, levantou-se e caminhou em nossa direção, seus olhos eram calmos e contemplativos, sua boca era meio aberta naturalmente, dando-o um aspecto de retardado.
- Por que não nos acalmamos? – Disse o homem do jornal. – Já não basta a violência gratuita que consumimos todos os dias? – Colocou a mão no ombro de Igor. – Tantas mortes desperdiçadas...
- Tantas vidas, você quer dizer. – Completou Beiço.
- Tantas mortes mesmo... – Disse o homem do jornal interrompendo. Seu olhar manteve um ar sádico.
- Não me encosta não, filho da puta. - Igor se desvencilhou da mão e encarou o sujeito.
- Ora, vamos parar com isso vocês dois. – O Batata interrompeu as provocações dos dois, empurrando o homem do jornal pra longe. – Vá pra lá Leonardo. Não comece você também, não está vendo que tenho tudo sobre controle, deus está olhando por nós.
- Você quer ver um barbudo, desgraçado? Meu saco é barbudo! – Igor disse num tom sarcástico, porém calmo e sereno. – Por que você grita tanto no meu ouvido, parece uma bicha tagarela? – Igor não alterou a voz em nenhum momento, sempre cândido e de movimentos leves. Era engraçado olhar assim; apenas tentava conter seus tiques nervosos, que de tempos em tempos, escapava ao seu controle.
- Deixa dessa, cara, vai pra lá, vai! – Beiço empurrou Igor pra perto do bidê e, tentando argumentar com o Batata, foi afastando-o com cuidado pra longe de Igor, enquanto Igor encarava com ódio e desdém, algo difícil de imaginar, contudo assustador. Era nítido que os cinco funcionários estavam nervosos com o acontecimento, formou-se um tumulto desnecessário, empurra-empurra e uma leve discussão. Eu não saí de perto do cara próximo ao armário, sabe-se lá o que ele poderia tirar de lá. Beiço gesticulava muito para apartar o conflito. Não demorou muito para cada um ir pro seu canto. O Nariz de Batata olhava feio para todos nós, parecia nos amaldiçoar e, não tirando os olhos do Cara de Buraco, fingi lavar as mãos despreocupadamente. Igor estava com um semblante mais tranqüilo, ele ia aos dois pólos com extrema simplicidade, realmente era um homem genial, em meio aos seus tiques e explosões; caminhava entre a afobação e a calmaria; do externo ao interno; da agonia a paz eterna; do medo a coragem com extrema facilidade. Ainda num sorriso inteligível, Igor virou-se e disse:
- Vou dar uma mijada. – A tensão ainda era grande, todos se entreolhavam esperando o momento exato para acordar, só precisava de um grão de areia e tudo iria explodir; a gota d’água, e Igor não só pingou a gota, como deixou uma caixa d’água toda derramar no chão do ladrilho frio do banheiro.
- Haaaaaaaaaaa... – Igor gritou o tanto quanto pôde ao mijar. Um berro, ou melhor, um urro vigoroso e explosivo ecoou por todo o restaurante. Não sei se ele gritou de sacanagem, ou apenas de alívio mesmo, mas gritou. O Nariz de Batata saltou em cima do Igor tentando acertá-lo na cabeça com os punhos, meio desordenado. Igor se desvencilhou com o corpo e, ainda com o zíper aberto e com o pau de fora, chutou o Batata na barriga, fazendo-o encolher todo o corpo com as mãos no estômago. Igor fechou o zíper e pegou-o pelos cabelos, esfregando no bidê sujo a cara do coitado e o seu nariz de batata. Eu fiquei meio aturdido com a cena toda, fazendo eu me distrair por alguns segundos e, voltando-me para o Cara Esburacado, ele já estava com a mão tirando algo de seu armário, pensei em ser uma arma, todavia era uma bíblia. O Esburacado arremessa a Bíblia na minha mente, tento esquivar e sinto o impacto dela no meu nariz. Beiço toma um coladão do moleque no meio dos córneos, e seu corpo dá uns dois passos pra trás. Eu pulo no corpo do homem de cara esburacado, acertando uma cabeçada no nariz do filho da puta. O sujeito fica um pouco grogue, eu levanto e dou dois bicos na barriga do desgraçado, ele ainda tenta gritar algo em nome de Jesus, mas é contido pelo meu pé na boca do seu estômago. Igor larga inconsciente o Nariz de Batata com a cara no mijo, partindo pra cima do moleque. Beiço tenta acertar um soco no cara do Maluco de Camisa Vermelha, contudo erra, levando em seguida dois chutes no joelho esquerdo. O moleque que encarava o Igor era bom no que fazia, ele era rápido. Igor tentou acertar dois cruzados na cara do garoto, mas o filho da puta esquiva e acerta um direto no rosto de Igor. Eu corro em direção ao Maluco de Camisa Vermelha e pulo com os dois pés nas costas do desgraçado. A porradaria comia solta no banheiro, os movimentos causavam vertigens; encontrões; socos; esquivas; correria; chutes; pontapés; cabeçadas; velocidade; agilidade; destreza; cruzados; ganchos. Caí de cara no chão após o chute no Camisa Vermelha. O moleque continuava trocando socos com Igor. Beiço não perdoa e chuta o rosto do Camisa Vermelha caído no chão. Igor tomba diante do moleque, mas não fica inconsciente. Ficamos perplexos com a cena, Igor era maior e mais forte. Num súbito momento de fúria Igor levanta do chão numa velocidade inimaginável e, aliado toda a sua ira insana, agarra a cabeça do moleque com toda força de seus músculos cansados. Eu fiquei sem reação com o que presenciei, ao observar o absurdo de alguém fora de si. Igor morde o nariz do moleque e puxa com extrema violência, arrancando a cartilagem da cara do infeliz. Pode se ouvir de longe o sussurro da cartilagem se rompendo e, numa agonia aterradora, o grito de dor do Moleque. Beiço ficou estático, aturdido pelo horror. O Moleque cai rodopiando e se contorcendo em dor, gritando de pavor e desespero. Com o movimento de uma patada de elefante, Igor esmaga a cabeça do garoto contra o chão, fazendo-o apagar na hora. Ficamos os três parados, estáticos, olhando para os corpos no chão, agora todos os infelizes que gritavam a pouco, jaziam no piso, inconscientes. O garoto sangrava abundantemente. Igor esticava seus membros em seus tiques incontroláveis. O palco que se formou estava horrível; o Nariz de Batata pendia desmaiado em seus joelhos com a cara no mictório; o Cara Esburacado imóvel no chão segurava o estômago com as duas mãos e se encolheu na posição fetal; o Homem de camisa Vermelha sangra um pouco pela boca e estirado no chão, abate-se entorpecido; o Moleque completava o quadro de aversão com a sua moldura de sangue golfado pelo buraco que deveria ser seu nariz. O quinto malandro que nada fez, olhou friamente para nós e comentou:
- Não ia muito mesmo com a cara destes viados. – Entrou numa cabine e se trancou. Não devíamos deixá-lo ali, acabamos de foder com tudo, a missão estava comprometida, e parando pra pensar melhor, acho que ela sempre esteve, contudo apenas me dei conta agora, vendo o rubro jorrar no chão tingindo meus sonhos de sangue.
- Vamos embora, vamos embora, agora! – Consegui murmurar após sair de meu torpor. Não obtive resposta, o que me fez gritar. – Vamos porra! – Nós três saímos correndo do banheiro em direção ao carro no estacionamento, por sorte estava tudo um pouco abandonado; ninguém nos viu sair, ninguém nos viu entrar. Estava apavorado, o medo dominou minhas entranhas, senti náusea aguda, quase me fazendo vomitar. Tive uma estranha vontade de chorar, contudo me controlei. Não era hora para amarelar, faltava pouco e tudo não passaria de lembranças da minha infame imaginação.
- O que foi que você fez, Igor? - indagou Beiço calmo e sereno. Nem pareceu que estava lá com a gente. O silêncio é a resposta de Igor. Beiço insiste. - O que foi que você fez, Igor?... – Beiço mantém a calma, enquanto Igor parece não ouvir, deveria estar viajando longe em sua raiva repentina, seu semblante era medonho. Beiço se inerva, todos estávamos muito descontrolados, ou até mesmo assustados com a nossa própria natureza, sentíamos grandes e pequenos. – Puta que pariu Igor, porra, que merda foi aquela?
- Fiz o necessário. E só não fiz pior, pois temos que entregar a encomenda. – Expôs Igor cerrando os dentes. – Eu estava profundamente abalado. As imagens de dor; agonia, aflição, humilhação, morte, sangue oscilavam sobre mim no mundo real. O pânico parecia espreitar a minha razão. Em pouco tempo a estrada nos engoliu novamente, o carro voava baixo com os faróis altos, sentia a razão voltar aos poucos, o silencio nos acomodava no banco e os olhares flutuavam em torno da paisagem morta pelo nosso próprio medo. Igor enxugava o sangue da cara com uns papéis que tinham no carro. Não havia muito que ser dito, apenas pensava em dar logo o fora deste pesadelo sinistro. Íamos passando pelas cidades em grande velocidade, não conversávamos um bom tempo de viagem, quando Beiço puxa assunto.
- Pelo menos nós saímos vivos daquela porradaria, não acham? Podia ser pior.
- Não acho que nada pode ser pior do que isso... – Afirmei.
- Seria pior se nós estivéssemos deitados naquele banheiro escroto. – Argumentou Beiço, sendo que isso eu não podia negar, seria muito pior. A estrada ia alimentando nosso espírito aventureiro. Todas as pequenas cidades de beira de estrada traziam em si uma sensação estranha de nostalgia, um passado que nunca vivi, e mesmo assim, nostálgico. Não fazia muito sentido, talvez nada nunca fez sentido, por conta disso vivia nesta piração, mas uma coisa é certa; mostre-me um homem são e eu apontarei um homem morto. As cidades iam mudando com velocidade, suas ruas estreitas e com pequenas casas iam dando lugar a um horizonte verde, ao campo e ao mato. Fiquei imaginando como seria morar nesses lugares esquecidos por deus, se me adaptaria a paz e ao silencio eterno da noite longa.

domingo, setembro 07, 2008

Cúmplices!







Quais são os sentidos das palavras
Se eu não a tenho para lhe dizer
E não a encontro para me expressar
Tudo aquilo que eu poderia ter
Tudo aquilo que eu queria lhe dar.

Minha vida segue medíocre

Minha vida às vezes vai dos trancos aos barrancos,
Não sei se subo, se desço, se falo ou me calo.
Carrego a culpa de minha solidão,
Minha pátria é minha consciência,
Sempre esperando controvérsias para entrar em guerra;
Meu deleite.

Não vou negar que já amei,
Mas vou negar que já chorei,
Por ti.

Minhas pernas são fortes, porém sem imaginação para voar por tudo o mundo. Talvez pelo simples fato de estarmos todos conectados ao mesmo sentimento de insatisfação disfarçados pelas inúmeras noites de prazeres sem fins e sem objetivo, motivo aparente, nem que fosse por um gol, ou por uma lágrima de alegria pelo simples acontecimento da vida. Por isso talvez estejamos tão vivos; o fervor do bater de um coração, nas mãos de Deus. Não consigo deixar meu país na atual conjuntura que me encontro, vitima e testemunha de uma cidade tão linda, tanto quanto seu criador a quis fazer, cercada de belezas naturais, infindáveis verdes que se espalham com a mesma facilidade de uma borboleta que beija o sulco da flor, um pássaro que nos rasga o céu sangrando de uma timidez por encontrar a lua, mesclando beleza teofânicas e terror humano, comprovando o paradoxo de Deus que nos criou rodeados de imperfeições, para que pudesse se criar à perfeição divina, consistindo em dar vida a tristeza, para logo depois, nascer à alegria, em um sentimento de vingança, fizesse se criar a justiça. Sendo vítima ou testemunha do terror emanado pelas mãos, do Homem, sujas de sangue lavada apenas pelas lagrimas escondidas pelas mesmas mãos tremulas e sujas do mesmo sangue, somos nós os prisioneiros de nossa própria criação para o subterfúgio da violenta natureza que sempre nos ameaçou; demos vida a grande sociedade humana que sem ela morreríamos e com ela nos destruiríamos. Agora nos guiamos, não apenas com nossos instintos presenteados pela natureza, de agir de acordo com nossas necessidades individuais e forma de pensar que é muitas vezes única, que através da dialética conquistaremos ou não a intelectualidade do próximo, consistindo aí, a ínfero ou a superior capacidade de inteligência, que apesar de aderir à idéia proposta, sempre se tem algo a discordar ou concordar, quase nunca se chega a uma decisão para um total de grupos sem inúmeros debates de conciliação, novas opiniões, diálogos ferreamente cansativos que exaurem a capacidade de alguns em compreender o mérito da reunião, é a sociedade que irá nos definir o espírito de sua forma de pensar, moldando formas expressivas de diferentes pontos de vistas, mas sempre não ultrapassando os limites de conduta e de o que é certo para o modo padrão de pensar, confundido os benéficos do bem estar social, com a alienação do indivíduo, que não colhendo informações suficientes, podendo contribuir para sua desenvoltura intelectual, de informações, respondendo suas necessidades únicas e que variam em todo ser humano, acabará por embarcar nos desejos e vontades alheias, coordenadas por poucos e seguidos por muitos, que guiam toda uma sociedade, muitas vezes fúteis, cabendo ao resto a mera condição de vítima e testemunha. Todos acabamos por parte deste conjunto de elementos e idéias que nos define o nosso modo de vida atual, regido pela orquestra ocasionalista, mesmo até nossos algozes do cotidiano, nos matando, levando o que nos pertence por direito, se tornam muitas vezes algozes por cansarem de serem vítimas, não que isto irá justificar os seus atos; a luta de cada um, pertence a todos nós. Os que lutam não deveriam esquecer suas origens, sendo que, em sua maioria, é a primeira se perder, deixada de lado, lembrando a insignificância dos atos de consumos vulgares que cada vez mais nos forçam a crer na importância de suas coisas. É esta a sociedade que vive, consumista, extremamente materialista, cada qual com sua capacidade de obter, por meios lícitos ou não, afinal, toda riqueza inicial provém de uns atos ilícitos, rodeados na contradição de segui-la e repudiá-la, para que suas vontades sejam aceitas e seus sonhos se concretizem, fazer sua parte de integrante desta grande forma única em que vive todo globalizado, ou um pequeno grupo de marginalizados, por esta, no mesmo instante ouvir esta forma viva de organização humana, de ser completamente independente materialmente assim como emotivamente, sozinhos, porém unidos pela solidão.
O dia traz a aurora do pensamento. Alguns que imaginavam encontrar-se em um grande torpor, já vencidos pela melancolia, surgem de volta do covil da inexistência, fincando a bandeira da imaginação, neste dia de hoje, tão límpido, com os pássaros cantando o amanhecer de uma nova rotina, as folhas chacoalhando em um vento úmido, amenizando o calor que afligem os mais idosos, mas que despertam os mais jovens para se amarem perante o sol, ou apenas ficarem, como preferirem. As praias sempre palco, cheias; pombos dividem com o público Homem as areias que rabiscadas pelos ventos dão formatos à paisagem que embora em muitos pontos do Rio possa parecer paradoxal, perplexa diante contrastes, misturando luxo e lixo, contornadas com pequenas pinceladas dramáticas de dor, na praia impera a igualdade, ninguém é mais que ninguém, a não ser o corpo. A beleza carioca também se encontra nas praças...Marcadas pelos jogos matutinos de alguns aposentados que a dividem com inúmeras crianças e seus brinquedos, logram um dialogo marcados pelos que não possuem mais energia e os que transbordam chegando a desperdiçar como loucos correndo em busca da alegria, alcançando apenas na exaustão, as praças com suas belas estátuas testemunham inúmeras alegrias matinais, sempre perscrutando o futuro e analisando o passado que um dia aqui passou, mas seguiu em frente, para não deixar o grande ciclo da vida a desejar. Diante destas mesmas estátuas, algumas repletas de vida, parecem que se movem, semeando sementes nos olhos de quem as vêem, perscrutando os relevos manchados pela idade, acharemos também as manchas de sangue deixadas pelos conflitos noturnos que tomam o lugar da paz brotada de um arfar de esperança infantil, e tristemente concluiremos que a estátua nunca se moveu ou mover-se-á, o que se move é a praça entre a paz e o inferno, causado pelas brincadeiras de crianças que concordam que a morte nunca vem e insatisfações de meninos que sabem que a morte vem a todos, a qualquer hora, em qualquer lugar, mesmo que seja só um menino.
Perto desta praça, um prédio de aspecto soturno, descansa um de nossos heróis do anonimato, que sofrem em silêncio dentro de seu apartamento, prisioneiro de seus preconceitos e sonhos em vão, que raramente se concretizam. A janela de frente para a praça, sempre o faz pensar naquele amor que ele nunca teve, talvez nunca a venha ter. Por culpa sua não posso afirmar, a certeza é uma gota no meio do oceano de probabilidades do mundo moderno, sempre correndo, sempre com pressa, sempre acontecendo e por muitas vezes nos vemos esquecidos em torno de fatos relevantes para alguns, mas que mesmo que você tente esquecer, este fato, que talvez não lhe interesse, vai fazer parte do seu cotidiano. O jornal existe para isto. Como chove hoje, na verdade nunca vi tanta chuva. Podem ser de ilusões, de mentiras, violências, melancolias e, graças ao bom Deus, doses homeopáticas de alegrias. Tenho arte nas veias, não que seja boa, mas é arte; desenhos, músicas, poesias, lembranças - conseguir lembrar as boas é arte. A arte faz-me lembrar a chuva, fria e impetuosa, mas quando se ouve acompanhado a musica de seus pingos, é uma delícia, assim como a arte que acompanhada pela imaginação, torna-se incrível. O pior é que no meio de tantos pingos, eu não tenho guarda-chuva, por conta disto, vou vivendo e me molhando em todas as gotas. Parece ser meio estupidez, mas podemos aprender com todos os pingos, aprendendo não a esquivar deles, tão pouco ignorá-los, sendo este ainda mais difícil, podemos é achar respostas fazendo com que os pingos se evaporem. Hoje me encontro assim, molhado mais que nunca, esperando me secar. Cada vez mais a chuva vai aumentando. Mas das gotas que vou contar hoje, não são todas, mas serão muitas. E haja guarda-chuva.
Debruçado pensante amargo pela espera dela, seu amor do dia, ou pelo menos sexual, vem contemplando sobre suas escolhas que o levaram a solidão de espírito. Apesar desta alma ser faminta por um gozo amoroso e não puramente carnal, seu romantismo adormece no leito das putas, tão solitário quanto ele, mas que para ela tinha a desculpa e o fardo do trabalho escolhido, desta vida viciante, de drogas, festas. Há putas que se drogam para se prostituir, outras se prostituem para se drogarem. Mas o que não dizem o chicote das línguas, é que muitas vezes quem se vicia é o cliente, não muitas vezes na mesma garota, mas no nervosismo, de muitas vezes, a encontrá-la, no sexo fácil, a luxúria, na saudade de um amor nunca reencontrado, ou até mesmo aqui, como nosso herói viciado nas promiscuidades de um sexo sujo, sem contatos mais profundos, apenas superficiais. O que vicia são os sentimentos.
Súbito de interrupto, abrupta um som ecoando pelos corredores por demais silenciosos, uma porta se fechando timidamente, para dar lugar a passos ainda mais tímidos, meio perdido diante das oito portas iguais, tornando todos os andares ainda mais iguais, evidenciando que, apesar de estarmos em Copacabana, não se trata de um prédio luxuoso, apenas mais um -------------, o que evidencia a pouca renda do nosso protagonista, que a partir de agora chamaremos de João Cabeça, vulgarmente chamado. Os andares que não cessam fora de seu apartamento, dão lugar a sobriedade do momento de distração que ficou na praça e as crianças crescendo sem perceber que elas não são as únicas que crescem, ou envelhecem. Meio que de susto, João vasculha seus pensamentos imaginando como seria sua amada de hoje, seus seios, bunda, quadris, o olhar era importante, seria ali que, talvez, ela demonstrasse se o prazer era real ou mais uma ficção da realidade, contida no arfar da sábia ignorância de não se entregar a alguém, o que tornava mais real e intenso seu prazer. Apesar de não conhecê-la, tão pouco chegar a vê-la, este homem ama as mulheres e ama ainda mais satisfazê-las sexualmente, uma de suas principais taras, o que não chega a ser tão repulsivo, mesmo que ele tenha que pagar para isto.
Estava tudo pronto para a manhã nupcial em que havia lhe dado o prazer de reservar, depois de tanto tempo melancólico pela sua condição de solidão em que se aprisionou. A cama era macia, um dos melhores cômodos da casa, talvez o único que prestava, até mesmo a mesa de madeira que ele ostentava com tanto orgulho ao lado da porta de entrada, para onde agora se dirigia apressadamente, deixando o medo dominar sua pressa. Não confunda aqui o medo com o pavor, palavras totalmente distintas se formos encaixá-las no cotidiano carioca. Aqui o medo abraça de forma relutante o coração de João, esperando o desconhecido que fatalmente estar por vir, sendo por conta disto o suspiro da excitação. Em cima da mesa, de tanto valor estimativo, afinal fora um presente de algum ente querido, que agora não daremos importância, descansa algumas roupas que a empregada deixou ali após lavar e ao seu encargo ficou de guardá-las, mas, não só o comodismo, outras vontades são mais prioridades do que um punhado de roupas a borda da mesa, ficando então ali, durante alguns dias, até o dia em que ele vestirá, só para tirá-las da sala. Atrás da mesa, descansa uma pequenina biblioteca, na verdade, poderia dizer, ser apenas uns emaranhados de livros, empoeirados, alguns recentes recebidos em uma promoção de jornal e outros comprados em sebos, o que nunca faltará em Copa. Ofegante, mas tranqüilo, João calmamente destranca suas duas presilhas que prende sua porta além da chave, é muito comum num bairro imprevisível, este tipo de cuidado, pois apesar de ser herói, nos dias de hoje, ninguém é de aço, muito menos João, agora avistando sua amada que procurando dentre as inúmeras portas o número oitocentos e um. Perdida se depara com a porta semi aberta, possibilitando esmiuçar entre a fenda e o facho de luz que ilumina o corredor, o rosto um pouco tímido de João, que ao vê-la, após um breve silêncio, sussurra em voz grave - Babi? – Bem, você que deve ser o João? – Normalmente sim, você me parece estar um pouco perdida, quer se encontrar aqui dentro? – Que gracinha, to louquinha para me encontrar, com licença. Com passos curtos, entretanto decididos, a casa de João se torna menor do que realmente é, deixando os desejos latentes nos poros já suados pelo próprio desejo, mas ainda mais pela inquietação do inevitável e imprevisível gozo. Os olhos de Babi fitam momentaneamente o apartamento de João, criando uma expectativa inútil de adentrar e encontrar inúmeros móveis de alta qualidade e caros, contudo o melhor que podemos lembrar que existe neste confortável cômodo, é a valorizada cama e a superestimada mesa. A janela, ainda arejando o ambiente, através de suaves brisas que adentram por suas esmiuçadas aberturas, trazendo com sigo o amenizar do ambiente, são interrompidas pelo violento fechar das espessas cortinas, sendo agora a sala úmida, escura, invadida apenas pela luz rastejante, fugindo do cômodo ao lado, tentando sobreviver a momentânea noite. Penumbras fitam a sombra da maldade que espreitam no âmago espírito de João, onde sua culpa e seu êxtase vigoram na dualidade de suas ações – Serei eu um pecador? Ou apenas mais um enlouquecido nesta maldita cidade, todos vendidos pela glória do seu trabalho menosprezado, bem, de qualquer forma poderei mais tarde me santificar anulando meus pecados com algumas ações boas, podendo ainda correr o risco de ser salvo, ainda desconheço a salvação. Caminhando até a borda da estante, habitante no meio da sala, perto do corredor que separa a metade da casa, sempre encarando a prostituta de modo natural, como uma convidada, escolhe dentre alguns inúmeros cds, com os vinis misturados ao chão, aquele que em seu mundo talvez fosse o mais indicado deixando na verdade, um clima melancólico para nós expectadores, mas bastante confortável para Babi, sempre esperando como uma hipótese alguma fantasia doentia, ou até mesmo algum espancamento masoquista. “Eu quis amar, mas tive medo, e quis salvar meu coração, mas o amor sabe o segredo, o medo pode matar o seu coração, água de beber, água de beber camara”. Os versos da musica enfeitando o coração dos românticos são aqui friamente absorvidos pelo coração de João Cabeça, que sempre sofreu em silêncio, assim como muitos sofrem sem ao menos saberem por que? Babi, no entanto começou a ficar mais à vontade, prosseguiu com alguns ainda tímidos passos, largando sua bolsa vazia encostada diante de uma das cadeiras a borda da mesa. O que estamos descobrindo, e o que está longe de passar pela consciência do João Cabeça são com que facilidade Babi resolveu carregar este fardo de se prostituir em busca de glamour, talvez a felicidade, a maldição do vício do sexo ou da própria droga, enquanto que o próprio João se vê perdido em seu mundo de culturas, honestidade, estudos, políticas e as mazelas da solidão de um amor intangível buscando refúgio no sexo não gratuito. Daí surge o desconforto da culpa, mas não menos prazeroso do que um simples orgasmo. Por conta de seus temores e inquietações, surge tingindo o desejo a timidez aconchegada pela autocrítica, insegurança e o silêncio desconfortável rondando todo o cômodo, espreitando os grãos de areia que se tornou o ego deste triste coitado. Acostumada com os inúmeros modos do sexo, nas maiores variedades possíveis, no entanto, não esperava deparar-se com tal peculiaridade. Dispensando a timidez, o que certamente não é o grande desafio para Babi, este pequeno caso notório de travar a personalidade diante da possibilidade do sexo pode ser muito comum em jovens virgens adolescentes, mas não com um homem bem resolvido nos assuntos profissionais, não como João que apesar de não ser um homem de grandes proporções financeiras é extremamente capaz de levantar seus sustentos diante do caos econômico que impera no imenso Brazil – Foi algo que eu não disse? – Aproximando-se cada vez mais, a garota agora um toque suave, de leve um carinho no rosto tenso, acrescentou uma gota no imenso mar de insegurança, deixando-o trêmulo, ansioso por um beijo João a afasta com um leve, porém, empurrão – Você não gostaria antes de beber alguma coisa, tenho várias bebidas de cervejinha a um vinho, mas só tinto – Ai, você me desculpa João, mas eu não estou acostumada a beber logo de manhã, fica muito pesado pra mim, porque você sabe né? – Temos que concordar que para certas pessoas, será à noite em que o dia fica mais forte – Entendo perfeitamente, ainda mais em uma quarta-feira como esta, ensolarado, cheio de vida, resvalando na noite, pois se o dia é lindo, incentiva à noite. Entretanto, me dá licença, eu curto muito um vinho para me aumentar àquela minha alegria de momento. Os copos e a garrafa estavam já na mesma estante em que sustenta o som, com certo ar de estabanado prepara um copo e o sorve em um único gole, refletindo em um sorriso acanhado de Babi – O que foi um gole, logo se tornou em inúmeros, e os contidos movimentos, quase que tímidos, de João tornou-se um impulso insano pelo sexo. O desejo latente pela conjunção carnal crescia incontrolavelmente, a saudade das curvas de uma mulher já o enlouquecera algumas vezes, com o vinho ficou ainda maior As posições variavam ao seu gosto, tornou-se outra pessoa. Só podia ser assim quando se apaixonava, era uma conduta típica sua. Não há barreiras para a paixão, nem para um eterno apaixonado que se joga ao abismo em nome de seu amor, nem para um bêbado incontrolável como João.
Os olhos já clamejavam pelo fogo de sua carne, que consumia todo ar, dando uma pequena impressão de ofegante. O amor era intangível. Ardia inclemente ao peito de João, com nódoas de melancolia, pois sabia que seria o último beijo, último toque, último olhar e arfar de esperança. Tanto era sua vontade que se perdia aos lábios de Babi, parecia labirinto asfaltado pelo medo do desejo que abrupta na forma de um beijo seco e inacabado. As pernas o sufocavam com força em torno de seu ventre, arrancando-lhe carícias incontroláveis que pulsam ferozmente nas veias de um sonho amargo, mas o doce é preenchido pelos murmúrios femininos que ecoavam por todo apartamento. A cama se contorcia a cada dança bêbada de dois corpos se amando, ou violentando, entre trocas de olhares secos iluminando cada gotícula de suor que brotava nos rostos cansados. O transito regia uma música assustadora e trêmula caindo impiedosamente por toda o ambiente. Atrás de um pequeno cômodo, observava de longe sob as sombras de cortinas espessas, uma figura assombrosa, conhecida recentemente, apesar deste fantasma, comum a todos os fantasmas, não poder fazer mais nada, apenas amaldiçoar em névoas de uma visão, estava estática a sua frente observando, julgando bem ao fundo dos olhos de João. Em sua face toda a sua hostilidade, as marcas do que sofrera. Todo horror que temia, neste momento havia se tornada realidade, o seu algoz havia lhe encontrado. Abruptamente se desfaz do amor que lhe pesa ao peito usando de força a vontade de sua sobrevivência, jogando-a de encontro ao tapete, já empoeirada pelo suor. Equilibrado sobre seus dois pés gira o corpo em busca de sua sanidade perdida pelo pavor de encarar sua própria morte. No seu total desespero suas mãos socam o ar em busca de segurança, Babi fica ao tapete olhando atônita o que se sucedera, sem acreditar, assustada, porém – O que aconteceu...Meu amor... - João pareceu que ficara surdo, observava apenas a cortina vazia, havia descoberto algo, uma visão inesperada comovendo-lhe os sentidos, o pavor substituiu o tesão, lembrara do acidente da noite passada, o que se sucedera ao individuo que agora voltou para lhe atormentar, João retornou à cama e adormeceu.

quinta-feira, agosto 21, 2008

Todo Mundo Pro Chão.








O dia seguinte correu livremente como já havia planejado Beto; a corridinha na orla, assistido alguns filmes, lido outros mais livros, deixando para trás o desconfortável e inevitável ócio da greve. A mente trabalha de forma mais convicta e não se aventura por pensamentos sem nenhuma importância, quando os atos ocupados para adormecer o ócio serão praticados conforme foram esquematizados. Já perceberam como acabamos por nos adaptar com certos fatos, esperando ociosamente ansioso que eles mudem, sem ao menos nos ocupar com outros assuntos, na verdade queremos que alguém tome conta desses assuntos do ócio, culpando os acontecimentos como criadores do marasmo em que nos encontramos, enquanto que na verdade o que devemos fazer é assassinar a ociosidade como for possível, assim como agiu Beto, estudando e se ocupando com a vida. Em todo caso, por conta de seus afazeres, o brilhante estudante de Ciências Sociais nem se quer viu o tempo passar, quando saiu do banho, lá pelas seis horas, lembrou-se de ir ver o amigo na Cobal do Humaitá. Não deu tempo para mais nada, pegou algumas tralhas, os seus fardos da humanidade tecnológica, celular, carteira com documentos, chaves do carro e saiu saindo, afinal, estava em Copa e o trânsito podia não ser dos melhores.
Não levou muito tempo e já havia parado sem saber ao menos por quê, só suposições. Graças ao bom Deus, que Deus se tenha, o transito, de início, estava cântico, suave e sereno, nem parecia o bom e velho Rio de Janeiro, mas, tanto que por azar, apareceu a blitz, falsa e verídica, fazendo por se estender em seu caminho, trazendo aquele velho desconforto já conhecido do povo carioca, e, Beto, pardo do jeito que é – Encosta, encosta aí! – Acostumado com os procedimentos enraizados na sua conduta civil, deixou clarear seus faróis e de leve ultrapassou uns emaranhados de cones, o jovem de aparência suave e feições sérias, aterrissou com uma breve distância do último cone o seu carro popular, porém suficientemente em condições para outro automóvel anexar ao seu lado – Os documentos do carro e de motorista, faz favor! - O olhar de serenidade confiança em que Beto observou os policiais foi respondido por um olhar de fúria contida, suprida no reflexo de seus olhos no coldre dos policiais – Ta aqui os documentos tudo em ordem; IPVA, documento do carro e minha carteira de habilitação, pode olhar! – Com mero desdém, o cabo Orlando caminha em volta do carro, observa alguns adesivos – OK! Pode descer do carro! – Os comandos prosseguem – O porta-malas carrega alguma coisa? – Não, talvez uma cadeira de praia – Ótimo, pode abrir – No mesmo instante algo de intrigante acontece. Logo quando passava alguns carros, encosta um outro, com os vidros totalmente negros, ao lado do pequeno carro popular de Beto que de longe observava o carro sendo revistado, quando de repente, mais que de repente, os vidros negros se abaixam e começa a ricochetar para todos os lados possíveis, inclusive para o lado do estudante que em um suspiro de reflexo, joga-se milagrosamente ao chão em busca de uma segurança momentânea. As quatro portas do automóvel que havia estacionado ao seu lado se abrem liberando todo seu caos urbano. Cinco homens armados de metralhadoras e roupas civis saem atirando em direção aos, já agora, supostos policiais, que até agora aturdidos pelos tiros, jazem mortos ao chão, sobrando rastros de violência, o deserto num segundo e Beto noutro ao chão. Alguns espectadores observavam, tudo e todos, atônitos com apropria realidade, cada vez mais ficção. Ainda catatônico o pequeno protagonista observa com o rabo de olho quem caíra, não menosprezando aqueles que ficaram de pé. Mais uma vez o instinto de sua conduta humana desperta enraizada, como dito anteriormente, falando em nome de sua pessoa - PODEM LEVAR O CARRO! AS CHAVES ESTÃO NA IGNIÇÃO – O homem com roupas civis e armas militares puxa de seu cinto um pequeno comunicador e com o mesmo, perto a boca, cochicha algo, para logo depois se dirigir até a presença vergonhosa da mais nova vítima de desgraça alheia, carioca. Tão pouca aquela situação terminara, havia feito suas preces para que diante daquelas circunstancias saísse vivo dali, sem um único arranhão sequer – Calma garoto, está tudo bem agora, já pode se levantar – A mão direita estendida em direção ao jovem ao chão, parecia piedosa, cheio de ternura, apesar do fuzil contraditória empunhado em sua mão esquerda – Esses homens eram traficantes perigosos, estávamos em uma operação sigilosa para prender esses criminosos, mas já foram abatidos, já pode se levantar, fique calmo! – Apesar das palavras saírem altas e claras proferidas pelo homem que se dizia policial, aos ouvidos de Beto, foram meros balbuciar, palavras turvas pelo medo de outro combate iminente. Um pouco aturdido pela cena dramática de mortes surpresas, jamais visualizadas pelo estudante, sendo que, uma coisa é um cadáver na aula de anatomia da faculdade, outra, é a morte assassina que lhe remata os olhos de repente sem aviso – O que? – Foram às únicas palavras que surtaram tranqüila no palco do horror – Foi os que eu disse garoto, somos policiais civis, fique calmo, agora já passou, espere um minuto, os documentos, por favor – Beto não acreditou nas palavras do policial, ficou atônito, mas o medo era pavor, resvalando em um gesto rápido e único, que ao puxar a carteira, cai de seu bolso um pequeno pedaço de seda, que por sorte o policial não viu, pois mais um transtorno surgiria, como irá surgir futuramente – Está aqui, tudo aqui, pode ver, não estava com estes caras – Fique tranqüilo garoto, é só procedimento de rotina. Mas mesmo assim vamos ter que revistá-lo – Não leva muito tempo e Beto é liberado, não quiseram levá-lo para depor, nem tão constar seu nome e suas iniciais, ou qualquer outro tipo de identificação nos autos, apenas disseram – Vá para casa garoto não há nada para você aqui, você já viu demais! – O tom enérgico e imperativo não fez Beto contestar um ai, apenas dirigiu-se ao carro e saiu saindo mais uma vez. Ninguém em sua sã consciência responderia – Mas calma aí, eu sou uma testemunha ocular, vocês não vão querer meu depoimento? E o inquérito dos fatos e acontecimentos, o relatório do flagrante? O que irá suceder-se depois? Não querem que eu vá a delegacia? – Tais argumentos fariam com que qualquer pessoa seja confundida com algum bandido, ou uma perda civil por mais uma bala perdida, o que acontece todo dia nesta cidade, para justificar o seu falecimento. Um pensamento como, “eles devem ter os seus motivos” ou “a corrupção é triste neste país”, ainda mais, “quem é quem nesta cidade? Pouco importa, eu vou é dar o fora daqui!” São alguns dos pensamentos que se passaram diante da aterrorizada mente deste jovem rapaz, que antes de sair de casa, mal sabia ele que ia se deparar com tamanha barbárie.
Por mais que saibamos pelos jornais de que como se encontra violenta a guerra urbana em nossas cidades, nunca achamos que irá bater em nossas portas, vivemos nossa vida aos esmos, felizes sem se dar conta, da violência que cresce e envelhece junto com agente. Acontece que o nosso amigo aqui, o Beto, já sabe disto, mas decidiu viver sua vida longe destes por menores, apenas quer ser mais um ser economicamente ativo sem ter que se preocupar com as mazelas urbanas, ou melhor, humanas. Não podemos esquecer nosso outro protagonista, Rodrigo Santos, que agora já impaciente pela espera, que nunca finda, não apenas por seu amigo, mas terminar logo com este seu sofrimento amoroso em que se viu terminado, mas que a Lê talvez ainda não saiba, conta o tempo e os ponteiros que agora jazem em uma hora de atraso, junto com alguns copos de chope, que não foram o suficiente para alterar o estado deste grande boêmio, mas serviram pelo menos, a pequena alteração de humor, ao invés da grande melancolia e chateação da demora, serviu de piadas infames e críticas irônicas para os pequenos personagens da vida cotidiana que estão por ali a desfilar, a Cobal sempre foi palco de inúmeros encontros e flertes, sem dispensar as comemorações infindas que circundam pela boate de músicos ao vivo – Engraçados aqueles caras, veja só como ele cambaleia quando anda, parece um João Bobo, ele parece que fica parado no lugar de tanto que vai e volta, pobre coitado. O amigo dele nem para carregá-lo ou algo do tipo, está ali mais pela gozação do amigo, de certo é um palhaço. Está certo que já cai algumas vezes, mas sempre em lugares propícios, como em shows e afins – Muito interessante os comentários. Mais interessante é constatar, justos são os calados de almas e espíritos, pois nem a Deus criticam o próximo, apenas deixa existir o mínimo de autocrítica. Esperar de si mesmo é melhor que cobrar incessantemente do individuo ao lado. De certo quando bate o tédio e estamos sozinhos, quando chega a exaustão da autocrítica, nasce o julgamento criticastro, todos que passam é algum motivo de crítica, “olha aquela mulher, tem o nariz estranho” . Não obstante, Rodrigo, também serve para seus vizinhos anônimos ser palco de observações, como, “olha aquele pobre coitado, tomou um bolo da namorada”, ou ainda, para os mais imaginativos, “o que será que aquele cara ta fazendo ali até agora? Faz tempo que está ali. Só reparando em todos e a tudo. Pode ser que ele está esperando alguém. Mas está taciturno, obscuro. De repente ele é um policial disfarçado. É melhor esconder minha maconha”. Somos sempre alvo, mas ninguém percebe, ou finge não perceber.
Quando Rodrigo já havia esquecido o que foi fazer ali, olhando um belo par de bundas que passava pelo local, chega esbaforido, meio ser ar, mas arfando como se o ar fosse capitalizado, e este fosse um homem muito rico querendo demonstrar seu poder de compra, esbravejando ao meio de soluços, quase chorando, um pique olímpico de invejar os maiores atletas, o estudante de Ciências Sociais Beto que agora pouco passara por uma experiência muito educativa nas trincheiras asfaltadas em uma área nobre do Rio – Meu Deus! Puta Que Pariu! Cara você não acreditaria se eu dissesse, mas em todo caso, aconteceu comigo uma história, diria mais, um fato extraordinário e não sei como sobrevivi – o peito esguio de Beto debatia-se de forma desesperado, cheio de esperança por novos ares, literalmente, algum médico que passasse por ali levantaria óbvias suspeitas, não levaria muito tempo para dizer, “dêem espaço para este rapaz respirar, ele precisa um pouco de ar.

terça-feira, agosto 12, 2008

Paladar Agônico.






Pérola,
Perto do seu olhar,
Minhas palavras se perdem em sons.
As letras
E expressões
Tem todo um novo significado em sua boca.
Seus sentidos não chegam a ser sentidos,
E todo amor não pode ser traduzido em uma simples Te Amo;
é o paradoxo de uma agonia no paladar de um beijo eterno.
Sinto você no meu corpo em cada segundo distante,
E a proximidade da razão, torna-se uma remota lembrança.
Preciso do seu afago,
Do calor do seu sexo,
Do despudor e a devassidão que nos eternizam dia e noite.
A mente voa enquanto embalo nossas lembranças,
A semana é insuportável...
Lenta em demasia, ou
Breve de mais;
É tudo ao mesmo tempo,
Não entendo.
Queria poder entender pra escrever tudo que sinto,
Mas me perco nas vãs palavras e em seus sentidos longínquos.
Aspiro ir além daquilo que poderia explicar tanta beleza,
Entretanto
Me sinto cada vez mais distante.
Amo-te.

segunda-feira, agosto 04, 2008

A Pérola; A Ostra E A Insólita Concha.









O sol doce na boca dos inquietos,
Chispam no reflexo das águas deslustradas
Pela consternação.
Vejo queimar suas flamas num mar de terra infirme.
Em sua crosta,
Limo;
Escorregadio,
Traiçoeiro nas rochosas montanhas no limiar da razão,
Um passo em falso e,
Sem sentidos do ser,
A idoneidade pode ser insuportável.
As pedras me cobriam e soterravam com tamanha volúpia,
Que a atmosfera criada
Aprisiona-me numa claustrofóbica existência
Junto ao meu íntimo,
Calado no preconceito;
Das formas delatoras;
Do repúdio;
De calor e
Prisioneiro do desejo que me esquece a carne.
E desta carne a guerra adentra o coração.
Não havia como fugir.
A música me aterrava os punhos
E cerrava os olhos,
Buscando nas minúcias lhe encontrar.
Contudo,
Dominou-me a aversão.
Cada nota de esperança,
Sorvida por um beijo sem paixão,
Tornava-se o desperdício.
Virei intérprete.
Atuava em vão em vã consciência.
Das rochas perpetrei meu organismo.
Fechado na escuridão,
Fiz-me ostra de uma insólita concha
Ainda que oculto,
Vivendo em rascunhos adormecidos,
O fulgor estala numa intrépida transposição,
Onde a Pérola iluminou de sobressalto
Todo o organismo destas rochosas viscosidades,
Uma razão firme,
Genial;
O amor é mais
Do que a razão pode conceber
Nada pude evitar,
A não ser me render
De corpo
A cada pedra
Num breve suspiro de amor.
A Pérola enriquece
A insólita Ostra.
Arranco-lhe a boca num chupão,
Hausto sua viscosidade num tenro vinho de gozo.
Rubro,
Tal qual o sangue,
Jorrado pelo descontrole.
Refiz minha concupiscência.
Volver a pérola tornou-se um capricho,
A extensão dos presentes
O único dos brindes que completa a pessoa que arde no íntimo.
A boceta me cala ao me colar a boca;
E me faz urrar o incompreensivo.
Tremo os poros do desejo,
Mordendo os lábios; Aperto a bunda.
As pálpebras se fecham inconscientemente.
Sinto a dor como um prazer homérico,
E nas nuvens de um escuro sentido,
Morro em milhões de pedaços
Num segundo de explosão,
Que se perpetua.
Afogado pelo prazer,
Abraço-lhe firme num sorriso aliviado,
Suspiro aéreo em vôos distantes,
A mente vaga.
O amor louco que todos fogem,
Em mim traz a razão de ser.

Lobato Dumond.

sexta-feira, julho 25, 2008

Terno e Gravata Das Bermudas.



O sol brilha em pleno inverno num calor de 28 graus amenos, porém quente. Ligo para o Cartório De Contas E Registros.

Pode entrar de bermuda...?
Só não pode entrar sem camisa, o resto tudo pode. – palavras dela.

Que bom, ainda há esperança.

segunda-feira, julho 21, 2008

Olhos Verdes.








Estes olhos verdes
Embutidos num sorriso de chumbo,
Despertando o que há de melhor
Nos reflexos de minhas pálpebras
Negras, cheias de dúvidas e certezas incertas.
Sou na verdade
Apenas um espelho do ser humano mais ofuscante
Deste astro circundante
Tão cheio de luzes

Meu mundo agora é verde
Da cor dos seus olhos,
Da cor da esperança
Cheios de vida incógnitas
Uma dor que nunca se apagará
Ou um rascunho que não vira arte
Fica vazia,
Apenas no rabisco do papel ou na mente
E tudo que é isto
Move meu mundo

A gota de uma lágrima
Esverdeada pelas retinas sorridentes
Emergida da felicidade
Umedeceu meu coração
De lá,
Brotou todo meu amor.
Nem todas poesias do mundo,
Nenhum poeta,
Tão pouco os maiores dos loucos
Junto aqueles dos mais incompreendidos
Saberia exprimir a beleza do meu amor

Aaa...As rosas...
Se pudessem teriam seu glamour,
Não só o seu perfume
Tentariam, se pudesse,
Fingir ser da cor de suas retinas

Meu amor é abstrato,
Não é concreto,
Assim suas proporções
São absurdamente tão absurdas,
Não podendo defini-las.

sexta-feira, julho 11, 2008

Imagens Ocultas.







A planície nem sempre nos mostra seus esconderijos,
Através do tempo aprendemos enxergar as minúcias da terra.
Correr a esmo não nos leva à lugar algum,
Contudo, de certo,
É divertido.
Não adianta se esconder ante ao abismo que nos cerca,
A brisa vindo de sua boca negra,
Emergindo de lugar nenhum,
Apenas de uma larga cratera,
Arrasta nossos devaneios
Deixando sepultar a razão.
A saída é voar,
Não cair nesta fenda;
Ruir a fantasia.
E sim dissipar-se dentro dela;
Flutue a realidade.
Descobrir seus segredos mais íntimos e ditar ao tempo o que somos
Seguindo o fluxo de nossa singular estrada.
O tempo transforma tal qual o fogo,
Deixando as cinzas e vestígios se alimentarem da história de cada um.
A carne perece,
O sangue coagula,
Os ossos se esfarelam
E a pele apodrece,
No entanto nada impede o íntimo de seguir suas faces.
O entusiasmo criador muitas vezes se perde na boca,
Sem perceber que das inspirações se erguem nações
Junto aos sensíveis mais fortes.
Deixem a mente vagar em busca de seus esconderijos,
Assim desnudando cada película de imagem.
Iluminando todo seu ser.