segunda-feira, dezembro 04, 2006

Réquiem De Uma Flauta.


Com o queixo ligeiramente erguido, com as pupilas entrecerradas e a fisionomia de esforço, apesar da leveza e calma de aparência que ostentava, dedilhava com ardor as inefáveis notas de sua flauta doce. Deixava os graves e agudos soando com tamanha paixão para um público igualmente apaixonado; que sentidos poderíamos dar para sons que quando escutados, levantam as mais contraditórias da lógica das emoções? Seus movimentos tinham o tempo de um sonho, vagarosos, seguidos por abruptos solavancos de seu corpo todo, hipnotizando assim os olhos ao seu redor. Não tardou a entrar o baixo de toda música, carregada de uma alegre melancolia, anarquizando toda felicidade existente em uma solitária gota de lágrima. A luz que emana de certos fatos, e fotos, prende totalmente a atenção de todo o reboliço ao seu redor, ainda mais com o coro ordenando toda a melodia a sua volta, deixando mais nítido todo contraditório. O violoncelo tragou em um só suspiro a imaginação mais abominável ao medo. Não era a tristeza que a música queria passar ao público, apesar de alguns se sentirem assim. A alegria também devia estar ali, contudo poucos a viram. O inexplicável era o mais aceitável; as dúvidas eram o verdadeiro foco. Ninguém se atreveu a dizer uma palavra, as respostas vinham não de palavras, e sim apenas de estrondos, sons, o rugido de uma orquestra em seu ápice. O homem que tocava a flauta estava no centro de tudo, da música e da platéia, assim como o resto da orquestra. Sentia-se o próprio maestro das conseqüências. A volúpia e o regozijo de poder estar ali, o fez tremer, mas não hesitar. Novas pessoas se juntavam da rua, chamados pelo coro que urrava do Teatro. Algumas mães, que voltavam com seus filhos para casa, não resistiram a tanta ostentação sonora e detiveram-se na porta, esticando os pescoços. E o Flautista aparentando cair, dá pequenos passos em direção ao público. Este homem sempre sonhara com este dia. Poder lotar todo um lugar, com tantas emoções contíguas a lembranças. De repente tudo se silencia, o teatro se calou, a música havia se calado, para no segundo seguinte, aplausos, uivos e explosões de ânimos ovacionando o Flautista. Este desceu de sua caixa de fera que o sustentava e olhou ao redor. A praça realmente havia enchido de pessoas, todavia não era um teatro, tão pouco um palácio, e sim uma praça; Cinelândia. O Flautista estende uma sacola e começou a recolher uns trocados, de olhos estendidos, os mesmos que contemplavam o céu. Depois de recolher o que pôde saiu de fininho na direção da praça seguinte, levando seu caixote de fera. Impressionante a capacidade de abstração junto à criação do imaginário. A música é a explicação de todo silêncio que nos cerca perante as dúvidas mais engenhosas, e que nos acompanha sempre que nos vemos sozinhos, ou chorando no júbilo ou na amargura.

Um comentário:

Drika disse...

a musica hipnotiza.
até as feras se acalmam com ela.

belo texto.